Paraíba do Sul
Músico, escritor, contador de história e fundador do Museu da Cultura Puri
“Por que que os italianos que vem de lá pra cá continuam sendo italianos, e os indígenas vem ali de Muriaé e não é mais indígena?”
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DAUÁ PURI:
Em 1808, a ordem do rei foi: caça aos puris e botocudos no Vale do Paraíba. Essa é a lei. Então, não pode ter. Você não pode falar, você não pode dizer o que você é, você não pode ser. Como hoje, continua a mesma coisa. Sabe? E essa própria cultura continua dizendo para a gente que você não pode existir.
Por quê que o cara é italiano, vem de lá para cá, chega aqui, ele continua sendo italiano? Aí, o indígena, sai dali, de Muriaé, vem pra cá, ele não é mais? Você que tem que dizer o que você é. E não importa também a partir de quando você é, é um direito seu. De você se identificar, de você se assumir. Porque o próprio processo, ele é um processo de extermínio. Vem sendo esse processo de amordaçamento, de aprisionamento. Impõe uma cultura sobre a sua cultura. E você tenta, mas você não consegue matar essa cultura. E na realidade nós somos o tempo todo contra a colonização. Nós nunca fomos a favor da colonização. Você não quer nada disso, você quer outra coisa, você quer é viver. Mas eu só vou compreender todo esse processo de invisibilidade que as populações indígenas são colocadas depois, né? Quando eu começo a voltar para estudar, pegar, e aí ir pegando uns caquinhos de falas, de memórias de um, de outro, para poder fazer a juntada.
O meu pai, o pai dele é que era filho da índia da região de Paty do Alferes, Arcozelo, Sardoal. Na realidade, o pai dele era o dono da fazenda e que quando a mãe de leite dele levava ele para mamar, aí ela perguntava para ele: “Henrique dou de mamar ou deixo morrer?”. Que ela sabia que o filho era filho dele.
Aí da parte da minha mãe, tanto minha avó, como o meu avô, veio da zona da mata de Minas Gerais. Então a minha avó era atarracadinha, assim, desse tamanhozinho, cabelo grande, né? Purizona, né? Aí tem a história, né? Que o dono da fazenda deixava ela amarrada para ela não fugir para o mato. A minha avó eu já conheci, a minha avó todo dia de tarde, seis horas da tarde ela pegava o cachimbo e ia pitar. “Vai lá pegar o meu cachimbo, né, vai lá pegar o meu cachimbo que eu vou pitar, eu vou correr o mundo”. “Onde é que está Tonica? Tonica já foi para o mato?” Que aí ela fugia para o mato para pitar no meio do mato. Então, a minha história eu só posso falar do meu avô para cá. Diferente dos outros que podem falar do tataravó, trisavó, a gente não sabe de nada.
Então desde pequeno eu tinha esse estranhamento comigo. O quê que é isso? Aí com oito anos de idade eu venho para a escola. E a primeira vez que eu chego na escola, a professora chama a lista de presença, né? “Dauá!” Aí eu levantei, né, todo contentinho. “Ah, o quê que é isso? Isso não é nome de gente!” Aquelas coisa, né? O primeiro bullying. E a partir daí, foi o tempo todo da minha vida essa coisa do questionamento. Aí eu disse: “Não, é um nome indígena.” “Mas não pode mudar?” Eu digo “Não. É meu nome, minha mãe que me deu”. E a estranheza do ser estranho é muito interessante dentro dessa sociedade eurocêntrica. Que não aceita o outro, o diferente. Só aceita aquele padrão que eles querem colocar.
E no final de ano, nós íamos passar o Natal lá em Paraíba do Sul. E aí, então, eu perguntava: “Tio, e como é que era a história dos negros e dos índios aqui?”. Então ele dizia para a gente: “Aqui não se fala nisso. Esquê. esquece isso.” Queria entender. Por quê que não fala do negro? Porque o que eu via era os negros, como é que eram os negros, cadê esses índios? A maioria dos meus amigos eram pretos. Mas no meio dos pretos eu não era preto. No meio dos brancos eu não era branco. E aí, então, desde pequeno eu venho com esses questionamentos, né? Que identidade é essa, que música é essa, que ser é esse? E eu ficava sempre me perguntando: que Brasil é esse que a gente não conhece, esse Brasil né? que a gente não sabe… E a partir daí, foi minha luta em promover essa nossa cultura, né?
E o que você sonha? Eu acho que o grande sonho nosso é a liberdade. É você ser livre. É você manter a sua liberdade.
[00:06:17] Canção [00:07:25]
Ho puky alekah tsore
Chambe, inhan, charré, antah
Dieh, popeh, tumah, mpó
Nl’ono, katilè, ho puky, petara
Que diz: o Puri mora na mata. Avô, avós, todo mundo gosta de morar no meio do mato. Fica pra lá, pra cá, pra quê? “vai pra a onde? Vai pra onde Zé? Não vá para lá, não, não venha pra cá. Tal, vá pra lá… é confusão…
Ho,ho bugre
Itanaji
Guaschant’lê, Guaschant’lê
Ah canjana masche tch’mba
[00:07:40]