Movimento

Fabricia Victorino Marciano

Rio das Flores
Integrante Folia de Reis

“Um lema que eu sempre levo do meu avô é – vento que sopra lá é o mesmo que sopra cá… É igual ao mundo, ele não gira? Um dia volta, quando volta, volta dobrado.”

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FABRICIA: 

Todo mundo tem uma história. Todo mundo tem uma gratidão àquela bandeira. O meu avô, comigo no colo, desesperado, não sabia o que fazer, ia ser transferida para o Rio, aí ele foi lá nos Santo Reis: “A partir de hoje ela vai sair sete anos na folia, porque o senhor me ajudou”. A promessa que ele fez, e eu saí, muito feliz da vida.

Aí, comecei a sair, a minha irmã Rosemary também começou a sair. Quem começou de palhaço primeiro, foi ela, depois foi eu. Mas, no mesmo ano. Ah, já que a Rosemary saiu, papai deixou, que a gente chamava o meu avô de papai. Papai deixou, eu falei: “Ah, pai, deixa eu sair também”.  “Ah, mas só mulher”. Eu falei: eu faço companhia para Rosemary. Aí acabou saindo nós duas. Aí ele deixou. A gente conseguiu quebrar aquele tabu, né? que só homem é que pode. Aí, a gente conseguiu dobrar meu avô lá e ele deixou a gente sair. E todo mundo achava que era homem. Não, que era o Fabiano, que era o meu irmão na época. “Ó lá o Fabiano”, chegou na hora eram duas mulheres. Na hora que a gente tirava a máscara: “caraca, é mulher!”. O povo ficava surpreso. 

O engraçado é que enquanto você veste aquela roupa você esquece do eu. Não existe você, você muda totalmente. A emoção, as poesias, as vezes você, vestida de palhaço, você fala tanta poesia que, às vezes, de cara limpa você fica sem graça. O meu tio Rogério, ele sem farda era uma coisa. Ele com farda, ele subia para tudo quanto é lugar, até no poste ele subia. Ele mudava totalmente. 

Eu acho que a folia é uma religião, e realmente, o meu avô tinha uma fé que até hoje eu não conheço. Quando a gente via o Tonho cantar, a folia cantando, parece que você está escutando a voz dele. Parece que tem um ali que está com o tom da voz dele. É a hora da emoção, a hora que todo mundo começa a desabar a chorar. Quando tu vem aqui em casa então, eu fico “gente, ó… é a voz do meu avô, escuta, olha…” as pessoas dizem “não, Fabricia”, “Escuta, presta atenção que vocês vão ver”. E sempre, no final, ele vem. No final ele vem. 

No final ele vem, dá aquela mensagem. Nossa, aí que todo mundo chora, que todo mundo desmonta. Tem a espiritualidade, por que você sente, parece que você está vendo as pessoas que se foram ali. Não é por que você quer, não, a pessoa está ali. Você vê, sabe? É alegre e triste. Eu não sei te explicar, é uma coisa que só você vendo, que você vai entender. Quem conviveu com ele fala “é o Tachico”. 

O meu avô, as pessoas chegavam lá com a coluna toda capengando, ele ia lá e rezava a espinhela arriada lá. O povo saía, “nossa, estou até respirando”. Então a gente vê como é espiritual também e é também católico. Acho que junta as duas coisas. O Tonho não vai em religião, a religião do Tonho é a folia. Tipo eu, eu tenho a minha religião, eu sou da umbanda. O Tonho é a folia. Pode estar o problema que for é a bandeira. 

Mas, a minha fé nos Santos Reis, olha, tem muitas promessas, tem muitas promessas cumpridas.  Eu, então, tenho várias. Tem hora que eu tenho dó dos Santos Reis. É tudo. A minha casa foi uma promessa. Eu fui na bandeira pedir ao meu Santos Reis, que se me desse uma casa, que todo ano ele ia vir na minha casa e eu ia fazer o almoço e a janta da folia. E todo ano. Esse ano eu fiquei triste porque eu não pude fazer. Porque, não porque eu não quis, mas porque a folia não saiu. Mas a minha promessa está aí, enquanto eu tiver vida, eu posso estar capengando, mas a minha promessa está lá. Todo ano a comida da folia vai estar aqui. 

Enquanto você olha a bandeira, você vai lá, ajoelha, faz teu pedido. Fazendo com fé. Você pode ter certeza que você vai voltar para agradecer. Porque cada fita que você vê lá na bandeira é uma promessa, é uma gratidão. Ah, mas é só uma bandeira cheia de fita com uma foto, com o terço, mas não é, não. Faz milagres. Mas não é a bandeira que faz milagres, é a sua fé. E cada conquista minha eu agradeço aos Santos Reis. 

E, um lema que eu sempre levo do meu avô, que ele sempre falava: “vento que sopra cá, é o mesmo que sopra lá”. Se eu fizer para você, é igual ao mundo, ele não gira? Um dia volta. Quando volta, volta dobrado. Se você plantar o bem, você vai receber o bem. Se você plantar o mal, você vai receber o mal, e dobrado ainda. É, tudo é uma troca, tudo é retorno. Quer dizer, vento que sopra cá, sopra lá. É só entregar na mão de Deus. 

A gente, acontecem umas coisas na vida da gente, que a gente fica revoltado. Aí meu Deus, porque que está acontecendo, por que eu sou merecedor? A melhor resposta: chega no tempo, olha pro tempo e pede pra Xangô. Será que eu sou merecedora de passar por tudo que eu estou passando? Se eu sou merecedora me dá força para eu passar com vitória. Agora, se eu não for merecedora, o senhor resolve essa situação, porque está pesada.

 Então, hoje eu posso dizer, hoje eu tenho minha casa, primeiramente agradeço a Deus e aos meus Santos Reis. O período que eu fiquei desempregada, agradeço a meus Santos Reis. Porque ele não deixou, nunca deixou faltar. Posso passar aperto? Sim. Mas, fome eu não passo. Eu sou pai e mãe aqui em casa. Mas, é aprendizado. Tudo na vida é aprendizado. Então, se você tiver fé, vai em frente que você consegue. Isso tudo eu aprendi com meu avô. Hoje a gente cai, ali na frente a gente levanta. Agora a gente chora, ali na frente ri. Só não pode desistir. [00:06:59]