Identidade

Helena da Silva

Andrade Costa
Erveira e Doceira

“Minha mãe não sabia ver hora, não sabia contar, mas ela tinha muita sabedoria”

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MARIA HELENA DA SILVA:  

 Eu acho que é um lugar muito bom, porque mesmo quando o povo vai embora, volta. É, às vezes vai embora, daqui a pouco eles estão de volta. Então não ficam muito tempo longe daqui. Então eu acho que é um lugar bom. Porque já teve muita… aqui já foi um lugar de muita gente, no tempo da lavoura, né? A lavoura acabou, então o povo foi se afastando. Se voltar a lavoura, vai voltar o povo de novo. Porque a lavoura traz uma fartura muito grande pra terra. Então, o pessoal vivia tudo aqui da enxada, assim, todo mundo da enxada. Nascia aqui, criava aqui aquela porção de gente. Então, duas ou três famílias enchiam essa rua aí, tudo, tudo, rapidinho. Então tinha, fazia esse negócio de brincadeira de baile, uns falavam brincadeira, outros falavam domingueira, assim. Então, não precisava muito, se você falava com dois, três vizinhos daqui, a festa estava pronta. Então era muita gente, né?!

As casas eram tudo de barro, sapê, tudo de barro. Alinhava assim, pra você fincar os esteios tudo. Fincava os esteios, juntava. Aí, vinha, juntava aquela gente pra barrear, para fazer o barro, jogar o barro na parede, barreava tudo. E depois tinha um baile, pra acertar o chão da casa. Ih, aquilo enchia de gente. Dançava naqueles cômodos tudo. Aquilo ficava até brilhando, igual cera. Jogava água, assim, as pessoas dançando, a criançada, gente grande dançando. Ficava tudo certinho, lisinho o chão, até brilhando. Dançava até o dia clarear. O sol estava fazendo e o nego tava dançando. Era calango que eles cantavam. 

Calango gosta do calango da lacraia, meu cabrito tá na faca, meu cavalo tá na baia. 

O pessoal ficava numa alegria medonha. Fazia aqueles farol de bambu, assim, para ir pros bares. Um dia estava vendo um farol assim longe e quando chegava lá você dava o farol pro dono da casa guardar, se não os outros pegavam seu farol, e saía fora. Então, quando a gente ia embora, saía sempre em grupo pra aproveitar o farol, aqueles que não tinham, né? Então, os que tinham saíam três, quatro famílias juntos pra aproveitar o farol. Aí quando chegava, se a minha casa era aqui, passava o farol pro outro que ia mais pra frente, e o outro passava pro outro, até chegar no fim. “Depois me volta meu farol, hein!” Tinha vez que voltava, tinha vez que não. Então era muito bom aqui na roça. Naquele tempo, muita alegria, mesmo aqui na roça…

Malha ali, ó. Começava a jogar malha às sete horas da manhã, até dez, onze horas da noite eu estava jogando malha na porta daquela venda. Sanfona tocando e nego cantando. E não tinha onde você passar não, hein. Ainda tinha mais essa, ainda. De tanta gente que estava ali. 

É fácil se formar um quilombo, ô, Lourenço. Já tinha muita gente que morava lá, tudo família. Então, tinha muita família. Uma família assim com muita gente, aí formou aquele quilombo. Aí, o pessoal começou a ir pra lá.  O homem tinha muito filho. Trabalhava plantando na lavoura. Não to falando naquelas terras as pessoas plantavam tudo? Ele plantava muito, então ia muita gente pra lá. Então tinha muita família, uma família assim com muita gente, aí formou aquele quilombo.  Porque seu Manoel Congo mesmo que era o dono do quilombo. Era o dono do serviço. Então, quando viu, estava cheio de gente. E ele tinha muito filho também. Então as pessoas davam um crédito um pro outro. Hoje está difícil. Se mandar uma pessoa… hoje uma pessoa tem medo um do outro. As pessoas têm medo um do outro. Se mandar uma pessoa, você não quer misturar com ele. Pras fazendas as pessoas não querem ir. Esse pessoal fica embolado lá, em casa alugada, mas não quer ir. E, não dá para o povo viver assim. O povo não dá, pro povo, o povo quer ficar assim, mas não dá pro povo viver. O povo está na miséria. 

Minha mãe foi, assim, criada numa fazenda. Aí, minha mãe rezava em assim, em pessoa, igual a nós mesmo, rezava quando era no centro dela, rezava em pessoa, em qualquer lugar assim, que ela encontrava as pessoas no caminho, ela rezava. Fazia… era parteira. Minha mãe não tinha muita sabedoria não, mas a minha mãe tinha, sabia era coisa que você ficava bobo de ver. Minha mãe não sabia ver hora, minha mãe não sabia contar, minha mãe não sabia nada.  Mas, minha mãe tinha uma sabedoria que você ficava boba de ver como é que ela tinha. Ela tinha uma força de curar as pessoas, de rezar e os maus sairem. Tinha dia que ela tinha que levantar da cama meia-noite pra rezar as pessoas, que gente passava mal e ia lá de noite pra ela rezar. Não ficava nenhuma criança sem nascer. Ela já fazia uma panela que ela tinha grande de chá, assim, todo mundo passava lá pra beber chá. Minha mãe era muito trabalhadeira. Trabalhava na roça, minha mãe trabalhava na enxada, assim, plantava muito. Tinha a horta dela de remédio. Tinha remédio que ela ia lá pro mato que ela mandava buscar onde tinha. E, nós íamos buscar ou então ia outra pessoa, apanhar pra ela. As árvores assim que ela já conhecia. A gente conhecia também. Por isso que eu conheço uma porção de erva. Aquele guiné, era um guiné que ela apanhava e assim, a espada de São Jorge, e mal-com-tudo, e negramina. E aquela raiz daquele cipó. Fazia um banho. A pessoa estava assim doente, que não sabia o que é que tinha. Fazia um banho e dava meia-noite na pessoa, do pescoço pra baixo. Amarrava, botava na bacia e amarrava um lençol, porque a bacia era grande. Amarrava um lençol branco. Amarrava ali e enfiava a bacia debaixo da cama. Botava a pessoa deitada. No outro dia, quando o dia já estava bem claro, aí era para coar. O que estava no corpo da pessoa, saía ali. A pessoa levantava e ficava bom. De qualquer doença que tinha. Fazia esse remédio e dava, esse banho, e dava. Não tinha mal que não saísse. 

Falava assim: vai ter a festa no centro hoje, sessão. Isso aqui lotava de gente. Todo mundo dançando, batendo a palma a noite inteira e dançando. Todo mundo dançava. Não era só quem tava rodando que dançava não, todo mundo dançava. A gente chegava lá e começava a dançar, aquilo animava. Você está dançando, está cantando. Eu gostava de ver cantar esse hino: “No mato tem tanto pau, mas não tem seu guia. Eu vou pedir Caboclo Arruda pra buscar seu guia”. E, aquele samba bonito batendo. Daqui a pouco vinha gente caindo de tudo que é lado, nego segurava, botava em pé. Outro segurava de cá. Daqui a pouco o terreiro estava cheio de gente rodando. Tudo sambando. “Hoje tem mironga, quá, quá, quá. Hoje tem mironga no meu gongá. Garrafa de cachaça na encruzilhada, isso é feitiço pra namorada”. Ih, o pessoal gostava. Tinha muita coisa. Eu sei que aquele povo até hoje está reclamando a morte da minha mãe. 

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