Pinheiral
Integrante do Jongo de Pinheiral e CREASF
“A gente tem uma cultura muito forte aqui nesse Vale”
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JOÃO PAULO:
Eu, assim, moleque novo, novo, novo, novo… junto com meus primos, a gente sempre estava envolvido com a minha família em reuniões, em movimentos, em discussões de militância. Tinha lugar que era escola, que aí tinha uma quadra, a gente inventava uma bola ou outra e ia jogar. Tinha lugar que não tinha nada disso, era sala, e a gente ficava sentado na barra da saia, no pé e ouvia. Sabe? Aquilo entrava na nossa cabeça, mas ao mesmo tempo a gente se distraía com outras coisas. Mas eu não sabia, não entendia o porquê de estar ali. Aí, os anos vão se passando, uma hora a ficha cai. Caraca! Eu não estava ali à toa. E são poucos os que enxergam que poderiam estar ali dando a mão e carregando junto, sabe?!
O Jongo sempre esteve na minha vida, sempre esteve ao meu redor, sempre esteve na minha casa. Assim, no meu lazer, no meu local. Tudo tinha jongo. Tudo isso aqui, tudo isso que vocês estão vendo aqui, era dentro da casa da minha avó. E a casa da minha avó tem três quartos, sala, cozinha e banheiro. E morava todo mundo junto: quatro filhos, cinco netos, meus avós e toda essa estrutura aqui. E aí, começou aquela discussão… Aí ficavam um pouco no terraço. E ficou aquela discussão: “ah, precisamos de um espaço, pra isso tal”. E, aí liberou o edital de Pontos de Cultura. E aí, eu lembro, assim direitinho, a minha tia chegar e me abraçar e falar: “ah, a gente ganhou o projeto, a gente ganhou, a gente ganhou!”
O Jongo conseguiu ter um espaço, conseguiu ter uma casa, conseguiu ter realmente o que é um ponto de referência. Um local que todo mundo pode chegar, ficar. Ser o nosso espaço, ser a nossa casa.
Uma vez eu estava conversando com minha tia, e a gente estava conversando muito sobre folclore. E aí, muitas pessoas: “Ah, é o mês do folclore, alguma coisa do folclore, vamos chamar o jongo”. O jongo não é folclore, sabe?! não é… é o jongo, o jongo está aqui, o jongo não acabou, o jongo não morreu. O jongo está presente o tempo todo. Então, o jongo é um pouco de tudo. É um pouco de luta, é um pouco de resistência, é um pouco de prosa, é um pouco de amor. É um pouco de tudo.
“Corta pau no mato, como não corta o limoeiro. Se o mal que vem para o pobre, como não vai para o fazendeiro? Corta pau no mato, como não corta o limoeiro. O mal que vem para o pobre, como não vai para o fazendeiro? Oh, ilelê, ilelê, oh ilelê, oh lêlê. Oh, ilelê, ilelê, oh ilelê, oh lêlê. Corta pau no mato, como não corta o limoeiro. O mal que vem para o pobre, como não vai para fazendeiro? Corta pau no mato, como não corta o limoeiro. Se o mal que vem para o pobre, como não vai para fazendeiro? Machado”.
Que é um pouco isso, né cara? Os negros sofreram muito, sofreram muito, pra ter muito senhor de engenho… senhores, né?! E aí, a gente vê igual a gente vê as ruínas lá, daquele jeito. E vários sangues negros correram por ali. E acabou que está tudo na mesma coisa. O mal que veio pro pobre primeiro, depois chegou até o fazendeiro. E até hoje é assim. Só não vê quem não quer, né?
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