Identidade

Joaquim Justino

Manuel Duarte
Cozinheiro e contador de histórias

“Aqui tem tanta história que parece mentira, mas são verdadeiras. Se existe assombração eu já vi, existe muita coisa.”

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JOAQUIM JUSTINO INÁCIO:  

Eu vim para cá em 1953, quando o meu pai veio de Minas, em cinquenta e três. Então, eu conheci um filho de preto velho. Morava lá num cômodo, se chamava seu Aleixo. Ele viu todo o movimento da escravidão ainda, ele alcançou bastante ainda.  Então, ele sentava… não sentava em banco, não. Ele se sentava num toco de pau. E, nem dormia em cama, a gente dormia em esteira. Esteira de taboa, com a fibra tirada no brejo feito de taboa, toda amarrada. E ele falava: a gente dormia naquela fibra, e o nosso cobertor era de saco de estopa, ele contava, e a nossa casa era feita de pau a pique barreada. Pau a pique, finca quatro esteios que não acabava, braúna. Atravessava toda de bambu, pegava o barro, amassava o barro e barreava. A minha avó morou também assim, nessas casas barreadas. O café muito forte. feito de garapa. O café do caldo da cana. Eu tomei muito também, fui criado praticamente com isso. Com o café de caldo de cana aqui nessa fazenda. E esse seu Aleixo ficava conversando comigo e me contava as histórias. Era uma coisa muito interessante. 

Aqui, por exemplo, tem o cemitério dos escravos, ali. Todas as pessoas que morriam na fazenda, enterravam ali. Sepultadas ali no cemitério. Aí o tempo foi passando, passando. Tinha um cruzeiro, no tempo dos antigos ainda, dos antepassados. Tinha um cruzeiro de madeira, dessa madeira braúna, que nunca caía. Então, a pessoa quando queria fazer promessa para chover, eu alcancei, me lembro disso. Parecia… tinha o quê? Uns dois, três meses sem chover, sem cair a chuva. O pessoal saía cantando, aquelas senhoras, aquelas donas. Ia pedir proteção, fazia promessa para chover. Todo mundo, aquelas donas, carregando a lata d’água na cabeça. Isso era a história. E a gente acompanhava, eu acompanhei muito isso, pra chover. Aí, chegava lá, todo mundo se ajoelhava, acendia lá a vela e jogava água na cruz. Interessante. Aqueles que não carregavam lata d’água, carregavam pedra. Tem lá, até hoje, ali. Jogava as pedras, despejava a lata d’água na cruz e fazia os pedidos às almas e pedindo a Deus, que mandasse chuva, a São Pedro. E chovia. Realmente vinha chuva. É uma história que parece mentira, mas é verdadeira. É, existe muita, muita coisa. Muita coisa. 

Chegou uma época aqui que ninguém pescava mais nesse rio. Ninguém andava de canoa. Todo mundo tinha um medo, porque apareceu um caboclo d’água. Veio lá de Santa Rita pra cá, fugiu de lá pra cá um casal de caboclo d’água. Então, tinha o João barqueiro, um senhor que se chamava João barqueiro. A vida dele era pescar. Saía de manhã cedo e só voltava à noite, pescando. Bem lá em cima, aqui onde tem um remanso. Quase perto do barreado, um lugarejo que tem ali. Ele tava pescando, o caboclo d’água apareceu. Meteu a mão na beirada da canoa, para virar a canoa, para pegar ele pra levar ele pro fundo do rio. Ele passou a mão no facão… ele era muito corajoso, passou a mão no facão, bah! Cortou o braço dele, a mão dele, do caboclo d’água. O caboclo d’água afundou, deixou ele, num fez com que pegasse ele. Ele veio embora, foi história, aquilo. Eles pegaram aquela mão do caboclo d’água na época, e levou para o museu. Nunca mais ninguém viu. Estou falando isso aqui. Eu assisti com esses meus olhos que estão aqui. Se existe assombração, visão, eu já vi. Vi muita coisa.  

E todo mundo conta essa história, que o lobisomem, para virar lobisomem… Isso aí é verdadeiro, essa história! Ele rola no chão, você já pensou? Ele rola no chão, assim, e de repente ele se transforma em um bicho. Aí, vira uma metade de gente, e uma metade, do meio pra frente, ele vira bicho. Vai no galinheiro de galinha, minha mãe diz que já presenciou muito. Come cocô de galinha. O lobisomem, quando ele está transformado em bicho. E sai andando, anda até a madrugada. Ele anda de quatro pés, ele anda assim com as mãos baixas na frente e atrás ele fica alto, atrás. Anda com as duas mãos no chão e os pés, uma espécie de um bicho. Mas na frente ele fica baixo e atrás ele fica alto. E do meio para frente ele se transforma em bicho. Se transforma num bicho muito feio. Um bicho, um bicho muito feio. E para trás, o restante, é gente. É uma história que parece mentira, mas é verdadeira. Muita coisa é verdadeira. 

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