Mendes
Muralista
“Ninguém nega arte, ninguém nega arte de si mesmo”
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LETÍCIA:
A minha avó, ela não sabe ler, porque ela perdeu a mãe muito nova, não é? E ela criou os irmãos, os irmãos foram para escola e ela ficou com o serviço de casa. Eu sinto que ela começou a escrever quase que explodindo, na verdade. Ela tinha muita coisa guardada dentro dela e ela nunca teve tempo para ter sensibilidade. Ela nunca teve tempo para falar o que ela sentia. Ela só teve tempo para fazer as coisas, para trabalhar. Ela falava: “o dia para trabalhar, a noite para descansar”.
Quando ela estava mais folgada, que os filhos já estavam adultos, aí ela botou para fora. Mas ela botou para fora com mágoa, com tristeza, com saudade, com beleza, com infância, com tudo. Ela só sentiu, ela se permitiu sentir. E o que ela sentia era tão bonito e ela sabia disso que ela falou: “eu vou escrever, mesmo não sabendo escrever. E só porque eu não sei escrever, agora eu vou escrever”. E ela começou a pedir às pessoas, primeiro aqui na mercearia, ela ficava na porta de casa com o caderninho. Ela pedia para as pessoas escreverem essa poesia que estava rodando dentro da cabeça dela. Começou devagar, mas aí ela não parou mais. E ela viveu para isso dos quarenta anos adiante. Ela viveu para fazer poesia. Todos os dias ela tinha a jornada dela de pegar um caderninho, uma caneta e ir passear e encontrar inspiração e mão para escrever, porque o resto ela já sabia.
É muito legal você pegar aqui as poesias dela e você ver que cada uma tem uma letra, que cada uma tem um formato. E que ela começa uma história em um lugar e ela termina em outro caderno, em outro momento, a mesma história de onde parou. Ela escreve retalhos e depois ela junta tudo. Mas eu acho que foi a maneira dela se desfazer inteira, se desmontar e rasgar as roupas para poder se encontrar com ela mesma. Depois de tanta batalha, né?
“As palavras que me dizias, pensavas que me ofendias, delas faço versos e com eles vivo a cantar”.
E ela era porreta, tá? Não era uma velhinha dócil, como muita gente imagina pelos poemas dos passarinhos. Não, ela era braba, muito braba, vocês não tem noção. Mulher forte, né? Mulher forte. Umbelina do Pimento, que chamavam ela lá na aldeia do Portugal de tão arretada que ela era.
Esse mural, ele começou por duas vias acidentais. Uma que eu estava com um bloqueio artístico já de quase dez anos. Enfim, eu estava num limbo. Estava num limbo. E aí veio um carro num dia de muita chuva, no meio da noite, e estourou o muro aqui do lado. O muro caiu e aí fizeram um novo. Eu já tinha desde a adolescência vontade de pintar a cidade toda. E se eu pintar esse muro? Queria fazer uma homenagem para minha avó. Enquanto ela está viva, sabe? Eu acho que ela merece. Mas eu queria que fosse uma coisa que remetesse a maneira como ela escreve, a maneira como ela pensa, como ela fala e até a maneira como ela está agora, um pouco perdida nas memórias também. Sabe? Então, não é só um resgate da minha arte, ou da arte dela, também é um resgate da autoestima de uma população que está abandonada, que está sem saber quem é, sem saber onde está, sem conhecer a própria história. Porque existe uma história que se repete, que a gente escuta na escola, porque eu nasci aqui, sabe? E eu escutei a vida toda que Mendes foi caminho de tropeiros, que Mendes faz parte do ciclo do café, que Mendes tem uma história com as fábricas, uma história de luta trabalhista muito forte também. E nada disso me dizia tanto respeito quanto a senhorinha que estava num ônibus pedindo para as pessoas fazerem poesia. E eu tinha isso em mente, mas eu não imaginava que a repercussão ia ser de uma identificação total do passeio público, dos passantes. Porque enquanto eu estava pintando, as pessoas já sabiam o que era aquilo que eu estava fazendo. As pessoas que passavam paravam e contavam a história de quando elas escreveram um poema para minha avó, de quando elas levaram para tirar xerox, de quando ela recitava na praça, de quando ela viajava no ônibus com eles, sabe? As pessoas se identificam com a arte, as pessoas precisam disso.
A nossa região tem uma coisa muito saudosista. Uma filosofia muito saudosista regida por pessoas com uma mentalidade fechada numa ideia que não existe mais, não cabe mais. Não cabe mais a ideia do barão, da baronesa. As pessoas que ficaram não foram os barões e as baronesas, as pessoas que ficaram foram os trabalhadores. O jovem trabalhador hoje nem tem nem direito de ficar, tem que ir embora, para ter direito a viver, a fazer alguma coisa da sua vida.
E eu resolvi ser do contra, do contra de mim mesma, da ideia que eu tinha. Eu resolvi bater o pé aqui e falar: não, tem que ter um jeito da juventude poder ficar, porque eu conheço tanta gente boa, eu conheço tanto artista em potencial desacreditado de fazer alguma coisa nesse lugar, que já tentaram várias vezes, mas não conseguiram nenhum apoio. Então, eu falei: eu vou fazer, e eu vou fazer de um jeito, que só tem um jeito de fazer as coisas, é fazendo. É botando a mão na massa. E comecei com esse muro e deu certo. E deu certo para mim, não é que está me gerando trabalho, somente. É a repercussão entre as pessoas da cidade. Quando eu comecei a fazer, muita gente falou, muita gente com um pouquinho mais de condição financeira falou: “Ah, mas as pessoas não vão dar valor, as pessoas vão destruir, as pessoas vão depredar”. Eu falei: as pessoas gostam de arte, as pessoas precisam de arte.
Ninguém nega arte, ninguém nega arte de si mesmo. Porque isso daqui é o retrato delas, é para elas, não é para vocês. E, olha, a aceitação das pessoas mais simples é que me fez desbloquear completamente a minha vontade de fazer arte novamente.
E assim caminha, né? As pessoas falam que Mendes é um rabo de cavalo que só cresce para baixo. Mas eu acredito que as coisas crescem, independente do sentido. Mas o que fazer com esses caquinhos que restaram? O que fazer para resgatar uma identidade tão difusa, que as pessoas nem conhecem a própria história? Como que faz isso? Eu tenho só a arte, mas pessoas como vocês têm história para contar, que estão sendo ouvidas e isso é muito bom. Porque não é só uma questão de fatos históricos, são pessoas que estão vivas que viram acontecer. São pessoas que os filhos não veem acontecer, porque tem que ir embora para trabalhar, para viver. Porque aqui, o que você vai fazer? Ser caixa de supermercado, conseguir um emprego de um salário mínimo na prefeitura, um subemprego qualquer em algum lugar, cortar grama, roçar pasto. Mas tem, tem coração nas pessoas aqui. Tem coração e tem vontade de se conhecer, de se reconhecer e de se amar. [00:09:47]