Serrinha (Madureira)
Integrante Jongo da Serrinha
“O jongo é pai do samba, o jongo surgiu muito antes, depois que veio o samba”
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DELI:
Minha avó era de Valença. Nasceu na fazenda da Bemposta, em Valença. Meu avô também. Porque minha avó e meu avô eram primos de primeiro grau, né? E aí, os dois nasceram lá. De lá, eles vieram morar aqui no Rio no morro de Mangueira. Depois de viver um tempo lá em Mangueira vieram para cá para a Serrinha. Quando vieram pra cá, para a Serrinha quase não tinha casas, né? Mas assim, minha avó, assim, eles vieram bem novinhos pra cá, para o Rio de Janeiro, não sei se ficou alguém. Depois se ficou…
E, também, quando eles queriam fazer cânticos de Jongo, aí se reunia a minha avó, meu tio Darci e a vovó Teresa que morreu com 115 anos. Eu acho que eles já aprenderam alguma coisa de lá e trouxeram para cá. E aí, eles ficavam lá no terreiro, assim, do nada conversando, jogando conversa fora, aí já vinha já uma inspiração. Inspiração é uma coisa que vem na sua cabeça na hora e você tem que gravar ou escrever se não vai embora, né? E, aí meu tio tinha um gravador… E dali surgiram vários cânticos do Jongo da Serrinha que a gente canta até hoje, feito por eles. E, assim, graças a Deus eu estava ali bebendo daquela fonte desde criança. E tia, vovó Teresa, também cantava um, que, assim, me marcou muito também, que era o Vapor: “Vapor berrou na Paraíba e chora eu, fumaça dele na Madureira e chora eu. O vapor berrou piuí, piuí! Vapor berrou na Paraíba e chora eu, e chora eu vovó, fumaça dele na Madureira e chora eu. Diz, Ô, Irê! Ô, Irê, Irê, Irê! Ô, Irê, Irê, Irê. Quando eu entro no Jongo e começo a cantar, segura ioiô, iaiá. Logo da minha vozinha começo a lembrar, segura iaiá. Toca minha gente esse Jongo que eu quero escutar, segura ioiô, iaiá. Nesse balanço gostoso eu vou me acabar. Vapor berrou piuí, piuí! Vapor berrou na Paraíba e chora eu, e chora eu vovó, fumaça dele na Madureira e chora eu. Diz, Ô, Irê! Ô, Irê, Irê, Irê! Ô, Irê, Irê, Irê. Machado!”.
Ver aquela roda daquelas pessoas dançando, era uma coisa assim… que tinha pessoas que choravam de vê-las dançando. Porque era uma coisa mágica. Aquela, sabe, aquelas umbigadas bonitas, sabe, aquela roda assim… Nossa, era uma coisa assim maravilhosa. Eu estou falando aqui com vocês, eu estou me arrepiando. Porque aí eu começo a falar… aí a gente começa a ver a cena. Então era muito lindo, muito lindo mesmo.
A vovó Teresa, ela foi escrava. Ela foi escrava e sofreu muito. E aí, ela contava, ficava contando as histórias que ela passava. Muito sofrimento, muita angústia, né? Vivia debaixo de açoite, sofrendo muito. Aí, ela contava isso, né? E aí, a gente… eu ficava lá ouvindo as histórias antigas, né? Delas… Nossa, é emocionante. Tinha a hora do banzo, que era hora do divertimento. Abria-se as rodas de Jongo, onde tinha a roda da capoeira também, né? Era hora do divertimento deles. Foi onde ela aprendeu o jongo há muitos anos atrás. Então, assim, ali era aquele momento da alegria deles, de viver, vamos dizer assim.
O Jongo, ele não é uma manifestação religiosa, mas o Jongo vem da linha dos Pretos-Velhos. A gente… até antes da gente abrir uma roda de Jongo, a gente faz uma reza. A minha avó fazia isso. Todas as vezes que abre uma roda a gente pede licença, às Santas Almas benditas. Que a dança é dos antigos escravos. E aí, depois que a gente reza, todo mundo de mãos dadas, depois que a gente acaba de rezar é que a gente abre a nossa roda. Pedindo licença aos Pretos-Velhos para que tudo corra bem. Para ter aquela harmonia, aquele axé, e a gente continua fazendo isso até hoje.
Minha avó rezava todas as doenças, até mordida de cobra minha avó rezava. Minha avó sabia muitas rezas. Então vinha muita gente na minha casa para rezar. Minha avó gostava muito de rezar com galho de arruda. O galho de arruda, um copo d’água do lado e uma vela, e ela rezava as pessoas com esse galho de arruda. Minha avó, como eu e outras pessoas aqui, tudo foi minha avó que fez o parto. Ela fazia muito bem. Antigamente enterrava os umbigos, às vezes, ou na frente da casa ou nos fundos da casa. Eu acho que meu umbigo está enterrado aqui, com certeza, que eu nasci em casa, minha avó que fez o parto da minha mãe, e fez o meu e o do meu irmão. E aí, eu não consigo sair daqui, menino. Já procurei casa para sair, não consigo sair. Dizem que onde está nosso umbigo, a gente não consegue sair, né?
O jongo é pai do samba. O jongo surgiu muito antes, depois é que veio o samba. Roda de samba e capoeira era criminalizado. As pessoas tinham que… eles diziam, os antigos diziam que eles tinham que correr se tivessem fazendo uma roda de samba, uma roda de capoeira tinha que correr porque a polícia prendia, né? Era uma coisa proibida. Incrível, uma coisa de cultura, proibida. Não podia. Hoje em dia, né? Ninguém vive mais sem samba. Tem coisas de antigamente que a gente não consegue entender, né? Mas, infelizmente acontecia.
A gente rompeu várias barreiras para chegar aonde a gente está, né? Graças a Deus. E as nossas ancestrais que lutaram pra caramba para que a gente esteja aqui à frente fazendo a nossa parte. É tudo a força da mulher, não desprezando, menosprezando os homens, mas a mulher tem muita força. Quando ela quer, ela tem muita força. E isso é que rege também. Graças a Deus a gente tem o nosso espaço. A mulher lutou muito para ter um espaço. Antigamente as mulheres, ela só servia para lavar, cozinhar e criar filho, né? E hoje em dia a mulher está aí, a mulher é tudo. A mulher é presidente, a mulher é médica, a mulher é tudo. Graças a Deus a gente venceu uma batalha forte. Antigamente tinha um preconceito horrível: “Não, mulher, mulher minha tem que ser em casa, na beira do fogão, do tanque”. Não, não tem mais isso, graças a Deus. A mulher está aonde ela quiser, né? E é isso aí. [00:08:44]