Ipiabas
Artista e co-fundador do Movimento de Resistência Puri
“Nossa missão hoje enquanto indígenas Puri é recuperar a Mata Atlântica”
KANDÚ PURI:
[00:00:08]
[Apresentação em Puri]
[00:00:30]
Meu nome é Kandú, eu sou indígena Puri, do Rio de Janeiro. Nós somos um povo originário dos quatro estados do sudeste, da bacia do rio Paraíba do Sul e dos afluentes: rio Pomba, rio Preto, rio Muriaé. E nós vivemos na região onde hoje estão as maiores metrópoles do Brasil. Então, nós somos atravessados de uma forma brutal e violenta por essa invasão e pelo que ela se tornou hoje. Mas, também é um lugar onde a gente… foi um palco da nossa resistência. Um povo que resistiu, mesmo atravessado por todos esses caminhos, nós resistimos aqui e ainda continuamos aqui no mesmo lugar.
Todo lugar aonde eu ando aqui o pessoal costuma falar: “ah, aqui é o Vale do Café, o Vale do Café.” Mas isso é o que eles querem fazer com que aqui seja. E era daqui da região do Vale do Paraíba, e eles querem valorizar essa história de dizer: “ah, aqui é o Vale do Café, olha a cultura do Vale do Café.” A cultura do Vale do Café, é a cultura da escravidão. E a cultura do café ela não dá valor pra terra. A cultura do café ela destrói terra, faz monocultura. Destrói, polui, perde a biodiversidade.
Nós hoje, nossa missão hoje enquanto indígenas puri, é recuperar a mata atlântica. Eu mesmo, eu me recuso a beber café. Eu não bebo café, ainda mais aqui em cima dessa terra. Não bebo porque eu já ouvi dizer, assim, um ditado popular aqui na região falando que: “ah, puri? Tu não é puri, não. Os índios puri virou tudo pó de café”.
É muito triste o que está acontecendo no Rio de Janeiro, não só no Rio de Janeiro, mas em São Paulo. Que são também territórios que meu povo, aí, viveu por muito tempo. Passou, passou livre, passou escravizado, passou inconsciente, passou como puri, passou como pardo, mas não deixa de passar. Então, eu acho que o mais importante é isso, cara, porque quando a gente vê o que que está sendo reproduzido? Nós indígenas no passado, que é “índio”, que a gente só vive na mata, como em 1500, onde só existia mata. Como é que eu vou viver na mata, cadê minha mata aqui?
Então, eu achei muito forte quando eu cheguei na aldeia maracanã e encontrei o pajé lá e ele estava com um cocar todo de pombo. Aí, eu falei: caramba, você está com um cocar de pombo. Aí, ele: ah, foi o pássaro que eu achei aqui. E, cara, aquilo foi um símbolo, assim, muito forte pra mim.
E, tipo assim, você fica: “não, mas não existem mais indígenas no Rio de Janeiro.” Só que não. Entendendo ali Rio de Janeiro, eu conversando com os mais velhos, eu já ouvi dizer que existem mais de dez mil indígenas só nos maiores complexos de favela ali da zona norte. Só que, estão sobre este estigma do apagamento. estão nesse não-lugar, estão numa diáspora. Porque é a mesma terra, só que o território foi transformado. Porque a partir do momento que eu estou na cidade é um constante preconceito.
Então, assim, mostrar esses processos que a gente vem vivendo. E que a gente está hoje aí, resistindo em diversos lugares. Que, às vezes, o nosso arco, às vezes vai ser uma câmera, às vezes vai ser uma cadeira na universidade, às vezes vai ser uma carreira musical. Porque hoje, a prisão é mental. Então, propagar a informação… Em Vassouras é muito importante porque é um território originário do povo puri. Então dizer que ali que: ah, beleza, a história dos puri não passa ali daquela região. Mas dizer que, pô, existem puris hoje que estão não só aqui em Vassouras, mas também aqui na região, não só aqui na região como no Vale do Paraíba, não só no Vale do Paraíba como nas cidades do sudeste, espalhados. Cara, aí a pessoa que é um remanescente puri que vai olha aquilo, dá até uma autoestima que ele sente que ele existe.
Eu cresci numa família adotiva e pra mim é uma história muito triste assim de contar, de lembrar, de pensar. Mas, eu reencontrei a minha família biológica, quando eu tinha uns 8 anos, assim. E eu aprendi muito com eles justamente esse lugar da resistência. Porque eles foram e me acharam, então eles ficaram a vida inteira me procurando, aí. E eu descobri que essa história de adoção é uma história recorrente, entendeu? Assim, entre povos indígenas, mas sobretudo entre povos macro-jê daqui da região do sudeste brasileiro. Uma história recorrente, assim, de separação de famílias, separação de histórias. E essas pessoas estão por aí, sem saber quem elas são, da onde elas vieram. Eu achei que era uma coisa aleatória: “ah, está acontecendo isso aqui comigo. Acontece várias coisas, com varias pessoas…” E eu entendi que não, que isso era um processo histórico. Que isso foi programado pra acontecer.
E fui entendendo isso conhecendo os outros parentes que tinham histórias semelhantes à minha. Eu já conheci várias pessoas nas favelas do Rio de Janeiro, que quando me vêem, falam: “nossa cara, eu sou índio também.” E aí, as pessoas já me falaram “eu fui adotado e minha família não deixa eu ir atrás da minha história.” Eu até choro quando eu escuto essas coisas, eu falo: Porra… muito cruel, assim.
Se há um apagamento grande, a gente está caminhando pra cada vez mais visibilizar. Tanto a nossa língua, quanto a nossa cultura, quando a nossa existência, resistência… Tudo que programaram, assim, o programa colonial preparou pra mim, eu estou lutando contra, na minha história. E lutando para fazer essa diferença não só na minha, mas na história dos meus outros parentes que estão aí, que eu vejo por aí, eu reconheço eles e eles não me reconhecem, às vezes, né?!
Então, hoje eu tenho muito orgulho, muito orgulho mesmo da minha história. Me machuca muito, muitas coisas, mas eu tenho muito orgulho de, apesar de tudo, contra todas as expectativas, estar aí vivo e existindo. E podendo estar falando isso abertamente.
Foi muito bom quando eu pude dizer “índio não, eu sou puri, agora você não pode mais me chamar assim desse jeito.”
[00:08:15]
koya koya koya ï ah
yamoeni dieh ti mun koya ï ah
yamoeni pañike ando ambonam
yamoeni tximeon ne pa laman
gayudo gayudo gayudo ï ah
yamoeni dieh ti mun gayudo ï ah
omi kre ansehon kanjana
aretxikuytxï day kambona
brotxen brotxen brotxen ï ah
yamoeni dieh ti mun brotxen
brotxen boa ï gayudo kapuna
omi tupangwara agahon omi vemu ï ñamankonkuzabayuna
makin ah pa ey metlon
day xapuko ah pa ey ndond
ah pa erekema ah mateuhin mligapeom
nat ah pa
makï ey tekwaraxï
lonke montay ey tekwaraxï
ñawera hon kemun ey tekwaraxï
ey
makï ey tekwaraxï
lonke montay ey tekwaraxï
ñawera hon kemun ey tekwaraxï ey
[00:09:01]
Eles dizem que começou pela nau e que só assim teve paz. Mas quando eu vi brancos de Portugal, foi que eu vi morte dos meus ancestrais. Então não adianta. Só para eles está bom aqui desde o Império. Estava na mata, vem e desmata, essa cidade é o meu cemitério. Amor ao próximo? A história é bem diferente do que eles contam. Aqui não teve um caso de amor, vocês estupraram as Pocahontas. eu sou puri pra lembrar que o Brasil não vem da colônia, coroado, puri, coropó, goitacá são guerreiros da mata-atlântica, aqui meus parentes são brabos. Me botou no toco, nunca vou esquecer, até africanos sequestraram pro outro lado enfraquecer. E isso tu não ouve na escola. Do indígena, do quilombola. Tivesse união, levava a mente e a gente pra fora dessa gaiola da bola que rola na copa da Europa. Que os alemão chegou e fez chacota, pra me dizer que 7×1 é a minha maior derrota. Mas, não, todo dia quando invadem a minha oca, me queima dentro da maloca e ainda diz que nós te rouba quando usa cota. Está de marola, está de marola, e aqui eu te espero a toda hora e não demora, que o vento que te trouxe, um dia leva de volta. Fé [00:10:11]