Pinheiral
Liderança do Jongo de Pinheiral e CREASF
“A importância que o povo negro teve para o país, para o Brasil e para a formação do Vale do Café, o nosso objetivo aqui é reverenciar o povo negro”
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MARIA AMELIA SILVEIRA:
No meu ponto de vista, a essência do jongo continua a mesma. A essência dele, o dançar, o respeito pela ancestralidade, o jeito de dançar, o jeito de confeccionar um tambor, de respeitar e de continuar a tradição. E também os pontos, que são as músicas, né?! Foram feitos, os pontos, as músicas pelos jongueiros lá do século XIX. Então, veio passando de geração em geração e a gente mantém até hoje, os mesmos pontos, cantamos do mesmo jeito. Tem uns que não tem, assim, a linguagem muito específica. Você vê que o português parece que é errado, mas não é, porque lá naquela época tudo se trabalhava na oralidade, né?! Toda roda de jongo tem seu mestre. Toda comunidade jongueira tem seu mestre, que é a pessoa mais velha que mantém a tradição. Então, essa pessoa, ela tem o dom de Deus de fazer seus pontos ali no momento. Entendeu? A gente… nós fazemos ponto também hoje. Mas muitas das vezes a gente repete, cantamos os pontos antigos que nós temos. Cada comunidade tem o seu:
“Tava dormindo, curimbamba me chamou. Tava dormindo, curimbamba me chamou. Disse: levanta, povo, cativeiro já acabou. Disse: levanta, povo, cativeiro já acabou”.
Pra você ver, Clementina de Jesus era da região de Valença, e lá cantava esse ponto. Então, a gente acredita também que muita das vezes os negros se cruzavam, as comunidades elas apresentam os passos do jongo diferenciados, de uma comunidade para outra. Mas, no ponto, a música, muitas delas batem. Entendeu? E a Clementina, ela cantava muito esse ponto, e aqui na nossa cidade também. Desde sempre. Porque o jongo aqui nunca parou, entendeu? O jongo sempre… Como a gente fala, o jongo aqui ele não é adormecido, ele sempre está em atividade. Então tinha pontos de demanda, tinha pontos de alegria, tinha pontos de lembranças da África, tinha pontos melancólicos que as pessoas lembravam da África e sofriam, choravam. Porque muitos dos negros morreram de tristeza por ter vindo na situação que vieram da África. Agora, no outro ponto de vista, em termo da questão da igualdade racial, de você falar sobre o racismo, você falar sobre a questão do negro, da vida do negro em si dentro da sociedade. Aí, o jongo, ele entra, também, como uma estratégia de trabalho para que a gente possa estar entrando nas universidades, nas faculdades, em teatros, em outros lugares através da dança do jongo. Então, o jongo, ele tem contribuído muito para isso, entendeu? Então, eu acho que a essência do jongo, ela continua a mesma. Mas, é uma maneira da gente conseguir novos espaços. Então, o jongo está abrindo muitas portas para o povo negro.
Então, o jongo é uma dança que é passada de geração em geração desde a época dos negros escravizados. E com isso, ela tem essa questão de respeito, das ancestralidades, tudo. E a gente enquanto criança não podia dançar, mas a gente ouvia toda a questão da dança do jongo. O respeito que a gente tinha que ter com os mais velhos, principalmente com os tambores. Aquela história que vinha da época dos negros escravizados aqui na nossa região. A importância que ele teve para o país, para o Brasil, que ele teve aqui para a região do Vale do Café, entendeu? Ele veio numa situação que não era para ser vinda, mas se veio, ele ajudou na construção desse país. Então, o objetivo aqui do CREASF, hoje a referência desse ponto de cultura aqui é reverenciar o povo negro. [00:04:59]