Vassouras
Padre Igreja da Matriz Vassouras
“Temos que avançar no sentido de ter algo em comum, lutar pelos direitos a serviço da vida com dignidade e abundância”
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PADRE JOSÉ ANTÔNIO DA SILVA:
O meu trabalho quando eu cheguei aqui foi, nesse sentido, de ir em direção de todos. E no que eu puder ajudar. A Igreja Católica não é a única igreja nesta cidade. Eu não estou na Idade Média, eu não estou no passado. Eu estou num mundo que existem outras expressões religiosas. Então, eu cheguei com essa proposta de ir ao encontro de todos, de dialogar com todos. Temos que avançar no sentido de ter algo em comum, lutar em comum pelos direitos que, às vezes, são negados. Fico feliz com isso. Um trabalho em comum, em conjunto. Porque todos estamos a serviço da vida. Então, o desafio é para que todos tenham vida, vida com dignidade e vida em abundância. Dignidade e qualidade. Então, nosso trabalho pastoral, independente da denominação religiosa, tem que levar em consideração a vida. O mundo que nós estamos hoje, na pós-modernidade, é a questão da radicalização. Os extremos. E a nossa missão é dialogar. Todas as experiências, elas têm o seu valor. Eu posso não concordar, não comungar com determinadas ideias, mas eu tenho que ter a capacidade de ouvir.
Nós, como padres, fazemos duas faculdades, filosofia e teologia. Então, você tem uma formação teórica, que quando a gente chega numa comunidade para desenvolver um trabalho como padre, você acha que já sabe tudo, mas pelo contrário quando a gente começa a conviver com as pessoas você vai perceber que você não sabe nada. Então a gente aprende com o povo, o povo também nos ensina muito, né? Porque é uma questão vivencial, eu acredito muito nisso. Aquilo que nós vivemos, que nós vamos incorporando no dia-a-dia, ninguém tira da gente. Aquelas coisas que a gente, de forma teórica e abstrata, incorporamos com o tempo, às vezes, aquilo não gera muita convicção. E todos são importantes. Você pega, por exemplo, a Igreja Matriz, a construção é mão de obra escrava. Então, eu não posso valorizar só os barões, que foram grandes beneméritos, eles são importantes também. O que é que nós podemos fazer, né, para fazer essa reparação? É um resgate, né. Como fazer para poder resgatar isso? Fazer essa reparação. Talvez dando voz, vez… Colocando essas pessoas, não como objetos, porque eles eram meros objetos, a opinião deles, a vontade deles não eram levados em consideração. Agora, hoje… Hoje o quê que nós podemos fazer no tempo que nós estamos vivendo? É resgatar a dignidade dessas pessoas. É promover, fazer com que eles sejam sujeitos dentro desse processo. Que cada um tem seu potencial, tem seus valores e pode contribuir. E a riqueza da sociedade está nessa convivência com essas diferenças, com esses vários grupos. De transitar diante de todas essas manifestações.
Vassouras é um caldeirão de cultura, é um caldeirão de manifestações culturais. Então, a gente tem que saber dialogar com tudo isso. No mundo que vivemos, se a gente não tiver capacidade de dialogar, de conviver com o diferente, nós estamos fadados à falência. Não temos uma única realidade, um único rosto, um único cenário. São vários cenários, são várias faces, talvez de uma mesma realidade, mas ela se expressa de diferentes formas. Nós temos aí, o Jongo, você tem a Folia de Reis, você tem Caninha Verde, tantas outras expressões. Porque ainda me intriga isso ser apenas, assim, ter visibilidade nos períodos de festivais. Então, eu acho que é algo que tem que acontecer mais vezes, porque o fato de estar acontecendo mais vezes, isso vai incorporando na cultura, no imaginário da cidade. Porque se for só para poder exibir para o turista… Então é algo que tem que estar acontecendo, essas rodas de Calango, de contação de histórias, mais vezes. E não pode ser apenas algo pro outro, tem que ser uma expressão daquilo que eu acredito. Porque é bonito, uma vez por ano, o Festival do Café dá uma volta aí, rodar na praça, bater o tambor. Mas e os outros onze meses do ano? Onde nós estamos? Quais são os espaços de expressão que esses grupos têm? Então é olhar a vida como um todo, né? Quando a vida é o centro e a luta é pelo bem comum, isso vale a pena a gente investir. [00:05:29]