Terra

Vale Verdejante

Andrade Costa
Fundadora e Integrante Vale Verdejante

“A melhor tecnologia de reflorestamento do país são as abelhas.”

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DENISE THOMÉ:

Quando a gente adquiriu o Vale Verdejante, a ideia era trazer para a comunidade um local onde a gente desenvolvesse práticas de meio ambiente. Naquela época, a gente deixou uma coisa, assim, muito simples, que era apenas plantar árvore. Ah, vamos trazer árvore para cá, a gente quer árvore. E a gente achou que isso aqui ia virar um parque, como de fato está virando e a gente achou que a comunidade precisava se apossar disso, se apoderar disso. De uma certa forma ou outra, quando eu encontro com pessoas da comunidade, elas lembram que um dia elas estiveram aqui. 

Então, quando a gente entendeu a coisa socioambiental, a gente foi se aproximando de outras articulações que traziam questões, que é o nosso dia-a-dia agora. É entender o Vale Verdejante como um demonstrativo de práticas sociais, econômicas, tecnológicas, políticas, cultural… Tem uma coisa muito legal, que eu acho, assim, que é muito convidativo aqui no Vale Verdejante é você ter uma floresta jovem, eu adoro jovem. Porque o jovem tem uma energia muito bacana e a nossa floresta é jovem. Eu acho que todo mundo está crescendo junto ali. Realmente a gente plantou pioneiras, aí tem que ser os angicos, que aqui eles chamam de cambuí, tem que ser o guapuruvu é uma pioneira, a embaúba é uma pioneira. Elas aceitam a diversidade. Aí são inúmeras, mas são muitas mesmo, que essa é a nossa riqueza.

IAGO SILVA:

 Araçá.

DENISE THOMÉ: 

Araçá também. Urucum. Todas são pioneiras. Aí, você primeiro planta esse grupo, elas vão ter uma vida menor. Mas agora a gente já está podendo colocar as que vão ficar aí por mais tempo, as que vão ficar por duzentos, quinhentos anos. O jequitibá, que é até o nome da nossa primeira trilha, que a gente se orgulha muito, já tem alguns exemplares, já tem nove exemplares de jequitibá. E eles devem ficar aí com a gente uns quinhentos anos, se Deus quiser. E tem também o próprio pau-ferro que é uma árvore que vive cento e cinquenta anos. Então, nós já estamos com alguns exemplares que vão firmar essa perenidade. 

No ano da crise hídrica, nós ficamos só com dez porcento do que nós tínhamos plantado, quer dizer, de quinhentas viraram cinquenta, foi bem problemático. No ano seguinte, para não correr risco, a gente plantou só duzentas árvores aqui na mata ciliar. Que eu falei: bom, se tiver outra crise hídrica a gente está seguro… estamos plantando perto da água. Então, o impacto vai ser menor. No terceiro ano, nós fomos aqui para cima de novo, aí decepção. Eu não vou saber dizer em quantos porcento, mas foi uma outra decepção. Eu falei, bom, então vamos tentar repensar o que está acontecendo aqui. E aí, foi que a gente começou a se aproximar da agroecologia. 

IAGO SILVA:

Acho que aqui, o pessoal daqui é mais rústico em terra. É só, capinou, fez a horta ali, esterco e pronto, e molhar. Não, ali vê o processo das flores, da palhagem, entendeu? É economia também, da água também, que veio da irrigação, que gastava muita água. Então, é uma evolução e economia também e aprendizado.

DENISE THOMÉ:

E economia do tempo também. 

IAGO SILVA:

Economia do tempo também. Com a palhada, mantém a terra mais úmida. E aí você ganha mais sabedoria, mais aprendizado. É isso, e assim vai. 

Ficou bem diferente, até passarinho, na época eu criava passarinho. Eu aprendi, uma coisa também que eu aprendi. Hoje, se eu vejo um passarinho na gaiola, eu fico já, também, boladão. É, não curto mais. Na época eu gostava muito. Mudou muita coisa, é o aprendizado com a natureza. Você aprende a respeitar os animais. Eu percebi também, eu botando bastante palhada, que essa terra mudou bastante, essa terra era avermelhada e daqui agora já está começando já, a cor dela a ficar mais escura. Isso mostra que a terra está ficando melhor. Mudou bastante. E está mudando e está subindo aos pouquinhos. Mas é devagar o processo. Mas eu percebi que já foi um avanço. Até com agropecuária também, de bois, se você misturar isso.

DENISE THOMÉ:

Você tem a bosta do boi que você aproveita, a titica da galinha, né? Que também pode ser muito bem aproveitado. Esse convívio pode ser bem salutar.

IAGO SILVA:

Porque o pessoal aqui da região, é só limpo, tirou tudo, o boi precisa de uma sombra, como a gente também, poxa, a gente não gosta de ficar no sol o tempo todo. Entendeu? 

Não tem árvore. O Vale Verdejante está criando isso, algumas coisas. Vi muitas pessoas aqui agora já se manifestando nisso. Já mudou um pouco o pensar. A galera sitiante também aí. Já vem plantando, já vem pensando em plantar, pede muda. Até algumas pessoas ainda aqui da região. Mas, ainda está, a gente está com o problema do fogo ainda, que aqui é bem, a galera queima lixo mesmo. É jornal, os lixos de casa, galhos, folhas, esses materiais que podem ser usados como matéria orgânica e o pessoal bota fogo, né? Poluindo o meio ambiente…

DENISE THOMÉ: 

A gente teve aqui já alguns casos, bem… foi  bem, assim, a pessoa assim super bem intencionada. Estava só botando o lixinho dela e queimou uma fazenda inteira. Entrou até em alguns sítios e tal. E não foi um caso, nem dois, não, infelizmente teve vários casos e geralmente é nessa época de setembro, agosto. Porque está muito seco. Inclusive tem, assim, é completamente proibido no Brasil você efetuar queimadas em agosto. Mesmo que seja cultural, enfim. Agosto é um mês que não se deve queimar nada.  E essa mudança de pensamento de que, na verdade, aquilo é uma riqueza, né? Porque transformando em matéria orgânica se torna uma riqueza pro solo. É o que a gente tem que trazer para galera. E a galera mais antiga é mais resistente a esse comentário.

O nosso canteiro agroecológico, que é onde tem a nossa horta, tem alguns momentos que algumas verduras passam daquela época. Chama, por exemplo, o alface vocês chamam de pendoar, né?

IAGO SILVA:

É, quando ficam mais velha.

DENISE THOMÉ:

Quando fica mais velha. E nesse momento a gente tem os nossos visitantes polinizadores. Que são as abelhas e outros também. Então, a gente aqui tem o meliponário, que a gente colocou as abelhinhas sem ferrão em caixinhas racionais. Mas elas também estão nas casinhas delas, que elas escolhem, digamos.

IAGO SILVA:

Natural da natureza mesmo.

DENISE THOMÉ: 

Estão na natureza. E a gente procura assim, auxiliá-las, porque acabou que elas são a melhor tecnologia de reflorestamento no país, são as abelhas. Porque elas que vão fazer o trabalho todo de polinização e poder garantir que esse reflorestamento vá para frente. 

Como era feito no passado, que todo sistema agroflorestal, os SAFs, que é sistema agroflorestal. Ele está só resgatando o passado, como eram feitos, ou entre os índios, ou entre outras culturas. Então, isso tudo aconteceu. Eu acho que quando a gente está resgatando esse rústico, na verdade a gente está resgatando é como era feito lá no passado. Você vê a floresta amazônica, o que é? É o resultado das folhas que estão caídas lá.

IAGO SILVA:

É verdade. [00:07:51]