Rio das Flores
Arquiteto e Urbanista
“Eu não tenho aquele viés de que o café foi só a riqueza… ele deixou uma degradação, ao fim do ciclo que deveria ter sido feita uma compensação social, econômica e não teve.”
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ANNIBAL AFONSO:
O carioca, eu acho que ele não vê tanta identidade com o interior. Porque ele era uma cidade mesmo ali, capital federal, as coisas acontecem muito ali. Fala ao carioca, ah você vai em Valença… Ele não se vê. O Carioca é uma coisa, o fluminense é outra. O Mineiro não, você é mineiro em qualquer lugar, em Belo Horizonte, em todo lugar. Eu formei em Barra do Piraí, e aí a proposta era voltada para fora mesmo. De sair, tudo. Mas sempre frequentei aqui. Então, sempre fui na beira do rio… E chegou um período que… Eles têm um projeto de fazer uma usina hidrelétrica aqui no rio. Aí, teve uma reunião no Rio das Flores, no centro cultural. Aí, o cara foi, apresentou, chamou o pessoal daqui da cidade. E, no final, eu falei “mas estranho.” Eu falei… eu só perguntei, assim, para a moça da engenharia. Eu falei assim: “Vocês vão fazer uma usina, vai ficar água parada e vocês não vão tratar o esgoto das casas não?” “Não, isso daí não é com a gente não, é com a prefeitura”. Eu falei, “engraçado..” Eu falei, o empreendimento… privatizou tudo no Brasil, essa é uma usina particular… Não é possível, lá é cheio de corredeiras, ela falou que não tinha nada. Eu falei: “não é possível isso daí.” O prefeito já sentando assim: “Ah vai vir o projeto, vai sair o projeto e vai começar daqui a pouco a obra”. Só que já morava o pessoal aqui e outros moradores que vieram de fora, que eram daqui, que compraram terra e sentaram a lenha durante a audiência pública. Aí que eu fui estudar. Eu fiz pós em meio ambiente. Fiz no Rio até. Aí, eu fui entendendo. E eu fui estudar sobre o rio, aí, já tinha uns estudos. Aí que eu fui entender o que era o rio, dentro da bacia, né?! Aí, eu fui lendo, fui me interessando. Já sabia alguns casos de pescador. Aí, eu fui pegando essas informações com eles. Já passeava nos lugares. Só que isso é um trabalho muito amplo. Eu comecei, eu tenho muitas percepções e muitas anotações. E, fui estudando sobre as fazendas. Eu não tenho aquele viés de que o café foi a riqueza. Eu tenho outro viés também, ele deixou uma degradação ao fim do ciclo. Deveria ter sido feito uma compensação social, econômica, não teve. Aí, acabou o período do café, veio o sistema de colonos. Aí, foi ligado já à agropecuária leiteira. As fazendas tinham casas de colonos, que moravam muita gente. Pode pegar uma família aí que morou, ela diz assim. Acho que Luanda já teve mais de duzentos moradores. Só na Luanda. Meu pai lembra de trem aqui, oh, embarcando leite, de fora a fora. Tinham um vagãozinho ali que chamavam de trolley, atravessava as latas de leite, embarcava. E a plataforma ia embora até a quadra aí, tudinho. Eu não peguei o período dessa relação de muito funcionário na fazenda, e vindo para cá, fazer compra, pegando trem.
O que eu já li, é o seguinte: o café não era muito propício para cá, o café pegou uma terra de mata atlântica boa, adubada. E, dizem que o leite também não era propício para cá. Para competir em alta escala com os pampas argentinos, que é tudo plano, a temperatura. Então, não adianta você pôr o gado para subir esse morro, descer. A perna fica dura, não dá muito leite. No século XIX, era um modo praticamente semi-industrial. Eu acho que nem existia industrialização, só com o trem. A CSN ela muda toda essa conformação, o Brasil vai se industrializar em cima de uma industrialização que vai degradar o rio. Porque o rio Paraíba do Sul, ele vai ser um rio que vai induzir a ocupação do século XX, com a ferrovia, o trem chega na região. Só que o Paraíba do Sul ele sofreu, foi muito violentado, né?! Mas, isso na década de 1940, 1950 era normal. A degradação… O progresso vinha acompanhado da degradação. E, tem aqueles lugares que ficaram, mais assim, longe dessa formação, desse progresso industrial, como Rio das Flores. As pessoas aqui não conhecem nem o rio Paraíba do Sul. Se perguntar aqui, “você conhece o rio Paraíba do Sul?” em Rio das Flores, eles não conhecem, eles nem sabem que passa. Então, é cultural. É uma coisa muito arraigada. Você vai… quem mora lá nunca veio aqui. Se perguntar, “você conhece Porto, Manuel Duarte?” “Não…” Três Ilhas… Eles não conhecem. Aí, eles vão para Vassouras… Mas, o território é muito dividido, né?! E esses municípios voltados muito para a divisa, eles vão pegar a característica de Minas Gerais, o município paradão… Paradão mesmo. Aqui em Belmiro Braga, então, a cidade não tem mil habitantes, a sede de cá. Se você atravessar a ponte, na sede não moram mil pessoas, na sede. Você chega em Rio das Flores é pequenininho. Você vai em Belmiro Braga, muito menor. E tem outros menores para cá. Porque eu não vejo como trazer um desenvolvimento industrial para cá. Acho que nunca vai vir, não tem como. Eu acho que ele nunca vai deixar de ser isso daqui, o município. Sempre foi isso, o município sempre foi isso aqui. Ele nunca teve dinheiro enquanto município. Ele teve quando era freguesia de Valença. Aí, Valença… Vassouras também. Aí decaiu, decaiu todo mundo, nunca mais teve. Acho que nunca mais vai ter também, daquela forma. E que foi uma forma inconsequente. Se pegar foi inconsequente, escravizando, derrubando… E, já se falava que não era para ser assim. Já se falava. Então não tem… Eu não acredito na riqueza, assim, muita riqueza, não. Acho isso uma fábula. Acho que o dinheiro vai ter que ser mais distribuído mesmo, não tem como. Na minha visão, né. [00:06:32]