Volta Redonda
Professor do Fundamental
“Dessa forma a gente vai resgatando a história, principalmente entendendo que fazemos parte do Vale do Café… a gente precisa mostrar que Volta Redonda teve vários períodos históricos, passamos por disputas de memória, tentou-se invisibilizar a cultura negra mas a gente tá aqui resistindo”
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CARLOS EDUARDO GIGLIO:
Uma vila chamada Vila de Santo Antônio da Volta Redonda. Ficou esse nome por conta dessa curva, mas as pessoas não sabiam, poucas pessoas sabem que isso vem do período dos índios, dos povos originários daqui da região. Que tem um mito que fala que um raio caiu naquele lugar e curvou o rio. O brasão da cidade tem lá em latim falando: “Diante do raio o rio curvou-se”. Que mostra que a gente… é mais uma prova de que a gente tinha sim uma população indígena considerável aqui nesse pedaço, de puris, né?
E aí, a gente vai tocando nisso com os estudantes e eles começam a ter alguma sacação… “Pô, mas e esses indígenas, cadê? para onde foram? o que é que aconteceu?” E aí, a gente vai contando um pouco da coisa da fuga, um pouco da coisa da invisibilização dos que ficaram, e vai chegando mais próximo do período do café e da escravidão que é outra coisa que eles também desconhecem aqui, do tipo: “Tá, mas escravizados? Onde? Aqui não teve isso”. Aí a gente exemplifica com algumas fazendas. E aí, eles começam a se dar conta, e aí através do patrimônio a gente mostra.
Todos os patrimônios são de cultura branca. Os nossos primeiros patrimônios tombados… a primeira foi uma igreja, a igreja de Santo Antônio que fazia parte de uma das fazendas, a fazenda de São João Batista. Que foi tombada como patrimônio histórico. E a gente não tem, por exemplo, nenhum terreiro de umbanda ou de candomblé tombado. Ninguém sabe quais foram os primeiros, como não sabe também o que aconteceu com os nossos escravizados. Rio de Janeiro a gente sabe que a partir do momento da abolição, começa o processo de favelização, de ida para os morros e tal. E aqui a gente não tem a menor ideia. Existem hoje algumas hipóteses. Mas a gente não sabe direito.
Porque a gente identificou uma dificuldade da molecada de se sentir parte da cidade, de se identificar com a cidade. Eu, que entendo, eu não consigo muito fazer parte. Eu entendo, eu gosto, eu dialogo. Mas não tem jeito, o meu sangue está carregado de pó de ferro. A CSN, a história da CSN é muito forte, a gente teve aqui o maior movimento operário do país. Fomos a primeira cidade industrializada, planejada. Isso forçou com que os operários se organizassem também. Então, isso deu um gás para o movimento operário. A gente teve, por conta disso, um enfrentamento que chegou à greve de 1988 em que morreram três operários. Então, essa história é muito forte, é muito presente. E aí, o projeto, a partir disso e desses questionamentos, eu criei um desdobramento chamado Quilombo de Aço, em que a gente tem reunido pretos e pretas velhas da cidade para contar um pouco da história dos seus pais, seus avós, da sua própria vida construindo a cidade.
Isso foi bem legal no sentido de começar a apresentar a cidade, e também a entender, analisar e entender um pouco da nossa história, da nossa cultura. Então, a gente começou a desenvolver esse projeto. Uma das ideias inclusive era chamar a galera do movimento negro da cidade que conquistou o espaço do Memorial Zumbi.
O Memorial Zumbi é um memorial plantado num bairro da burguesia da cidade pelo movimento negro na década de 1980. Isso é fantástico, muito importante, poderoso. Vale frisar que uma das pessoas, um pouco daquele grupo, foi um grupo que formou em 1966, um clube chamado Clube Palmares, também num bairro de burguesia, porque em pleno 1966 no Brasil a gente tinha em Volta Redonda a proibição de negros entrar em clubes da cidade. Com um detalhe muito bacana que era: para você ser sócio do Palmares, você tinha que ser um preto empoderado. Mas, não é esse empoderamento que a gente tem visto hoje, estético, financeiro, capitalista. Empoderamento de conhecimento, você tinha que estar estudando. Então, isso é muito importante.
E dessa forma a gente vai resgatando a história, principalmente entendendo que tivemos sim, fizemos parte, fazemos parte do Vale do Café, temos as histórias de fazendas como a São João Batista, a Fazenda Três Poços, e outras fazendas que a gente precisa trazer à tona, para mostrar, olha, Volta Redonda fez parte de vários períodos históricos da cidade. Passamos por disputas de memória, tentou-se inviabilizar, invisibilizar a cultura negra, mas a gente está aqui resistindo. [00:06:24]