Identidade

Claudia Mamede

Vassouras
Liderança Jongo Caxambu Renascer

“Como diz o jongo – Deram nossa liberdade mas não deram banco pra sentar – que liberdade é essa que forçou tantos a retornarem a escravidão? A gente sabe que não passou.”

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CLAUDIA MAMEDE: 

O Jongo me toca a alma pela história do negro. O jongo me toca a alma por uma militância. O Jongo, ele me toca a alma por eu saber que querendo ou não, querendo ou não, tem um vínculo com a religião, né? Esta é a minha presença no Jongo. Um grito pela igualdade. Um grito pela aceitação, pelo respeito. Eu vejo o Jongo assim. Um respeito à ancestralidade. Mas, o Jongo, na verdade, ele é a história, a história da minha família. Eu acho que qualquer coisa que eu queira contar que fale da religião, que fale do meu dia-a-dia, que fale da minha família, eu preciso da base. Por que tudo partiu do Jongo.

Porque tambor, tambor remete a religião. Mexeu com tambor tem ligação, que seja no carnaval, que seja… tem ligação. Na medida em que o tambor está dentro do Jongo, ali está nossa história, tá? Ali está nossa história. Acho que é um meio de eu… de manter a cultura viva. De manter a nossa história viva. Acho que é… eu vejo o Jongo como cordão umbilical. Na medida em que… acho que se não fosse o jongo de repente a gente seria só mais um dentro da história do negro. Só mais um, né?  

Porque no Jongo é que canta, o Jongo canta. Ele canta a história, ele canta as lamentações, tá? O Jongo fala do sofrimento, o Jongo fala das saídas, o Jongo fala dos caminhos da liberdade. O Jongo fala dos gritos que se ouvia. Foi tudo ali no jongo. Era através do jongo que se marcava a fuga. Toda vez que tinha um Jongo era momento de conversa, né? Até minha mãezinha ela cantava muito, tadinha. Ela gostava de cantar essa cantiga, ela cantava assim: “quando passar na ponte funda, gente. Ô, dê lembranças a Leonor. Quando passar na ponte funda gente. Ô, dê lembranças a Leonor. Ô, diga a ela que eu estou preso, aí meu Deus do céu, quando me soltar eu vou. Ô, diga a ela que eu estou preso, aí meu Deus do céu, quando me soltar eu vou”. 

 Aí quem vê assim, pensa que é só uma cantiga. A ponte funda, a ponte funda fica na descida do Morro da Vaca. Ali era a ponte funda, tá? E praticamente quando eles vinham fazendo fuga eles vinham de lá, de Paty para cá. Aí a ponte funda era onde estava marcado de se encontrarem na fuga. A ponte funda, quando passasse, Leonor. Leonor era o líder da fuga… “Ô, dê lembranças a Leonor” cantando ali eles iam falando: “Diga a ela que estou preso, aí meu Deus do céu, quando me soltar eu vou”. Tá, ele estava vigiado. Ele estava vigiado. “Estou preso”. O capitão do mato estava de olho nele, tá? “Quando me soltar eu vou” quer dizer, ele ia para fuga, que eles podiam seguir em frente. “Eu passei no roseiral me espinhei todo, mas eu não saí ferido, eu saí foi mais cheiroso. Eu passei no roseiral me espinhei todo, mas eu não saí ferido, eu saí, foi mais cheiroso”. E ele cantava isso direto. Aí, o roseiral o que ele quer dizer? O roseiral é a escravidão. “eu passei no roseiral me espinhei todo” sofri muito, mais muito, muito…, mas não me abalou. “Eu não saí ferido, eu saí, foi mais cheiroso”.

A abolição da escravatura em 1888, e tal. Mas essa data, na verdade, ela não aconteceu. A gente sabe que não aconteceu. Por que dali, né?… que tem até a parte do Jongo: “deram nossa liberdade, mas não deram banco para sentar”.  Então, que liberdade é essa, né? Se praticamente forçou muitos a voltar-se a se escravizar. Porque não tinha, não tinha terra, não tinha o que comer, não tinha estrutura nenhuma. 

Não passou, a gente sabe que não passou, tá? Tanto que não passou que está aí, esse ranço correndo pelo país todo. Esse preconceito. Não pode, realmente doeu. É uma história que não tem como ser ignorada. Até porque ela vem se fazendo presente. Ela está insistindo, ela vem insistindo que ela tem que se fazer presente. Então a gente não pode deixar. É a nossa missão não deixar. Melhorou? Entre aspas, melhorou, mas não o esperado. Não o que realmente deveria ser. 

Porque praticamente se você parar para pensar não tem necessidade da gente estar vivendo com sincretismo, né? Foi tempo, foi tempo, não tem… o meu sonho é fazer um gongá de Orixás, tá? Eu não quero o meu gongá sincretizado. Antigamente tinha que sincretizar para poder os escravos cultuar a religião de fato. Eu quero cultuar minha religião de fato. Teve a sua importância para época, mas hoje em dia não cabe mais. Só não enxerga quem não quiser enxergar, não cabe, não tem cabimento. 

Eu não sei, acho que é mania das pessoas também achar que você, eu acho, que só é considerado uma pessoa sábia, quando você tem uma faculdade, não é verdade. As questões agora, graças a Deus, não estão mais com aquela formalidade de achar que tudo que está no livro didático é o certo, é o que vale, que a sua vida se resume a um livro didático. 

Mas, eu me vejo formada, tocando a minha casa, tocando o Jongo, porque o Jongo a gente não pode deixar morrer. É de família, é tradição. Eu peguei esse compromisso, tá? Meu irmão que estava de liderança. Eu estava mais fazendo parte do Jongo, mas dando um apoio. Ele exalava cultura, meu irmão. Daquele jeito dele, sempre assim sabe, parecia um touro abrindo assim. Amado por todo mundo e dançava, e “vamos!” era assim, “vamos!”. E ele ia na frente, né? E a gente ia atrás dele. E agora quem tem que ser esse touro sou eu. Peguei essa missão e estou levando adiante já deixando uma sementinha para dar seguimento, né? E tudo, mas eu já tenho o meu futuro traçado.

 Eu não sei como vocês vão entender isso, mas… Eu acho que na verdade eu estou caminhando para decidir o que eu quero, para saber de fato o que eu quero para minha vida, tá? E a cada dia que passa eu tenho mais certeza disso, tá? Que eu estou buscando o que eu já tenho. [00:08:43]