Sacra Família do Tinguá
Musicista e Diretora Artística do Uaná Etê Jardins Culturais
“O Vale é um santuário cultural e ambiental do país, uma raiz profunda para compreender a brasilidade”
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CRISTINA BRAGA:
O Vale é um santuário cultural e ambiental do Brasil. Eu acho que ele tem muitos elos perdidos, ele tem muitas chaves, ele é uma raiz profunda para a gente entender a brasilidade. Ele começa pelos caminhos, e ele tem esse DNA de caminho nele. E o caminho é sempre uma teia do encontro. Então, quem veio para o Vale buscava caminhos, abriu caminhos, ouviu dos povos originários aqui os caminhos. A gente tem aqui a maior bacia do sudeste brasileiro. E, em torno dessa bacia de água e vida você tem lendas, histórias, personagens, o conhecimento da mata, o conhecimento da floresta, o pensamento das pessoas daqui. Assim, tem uma linha muito interessante. Você pega uns fios, você vê que ele vem dos povos originários, outros fios vêm dos povos africanos, outros fios vêm dos povos europeus, né?! Portugueses principalmente. Você vê tem uns fios dos árabes, uns fios judaicos. É muito legal. E assim, na música a gente aprende que a música é a arte da harmonia. É você poder fazer os contrastes soarem bem, harmonicamente juntos. As diferenças são coisas que a gente almeja. Esse conceito de harmonia é uma coisa muito bacana que vem da nossa profissão, de você buscar os contrastes e neles a harmonia. Porque a harmonia está em tudo, ela está presente em tudo. É uma grande civilização aqui, que poucas vezes teve voz, e que vem cada vez mais ganhando voz. E quando você começa a ouvir mesmo o que eles têm a dizer, a voz que eles têm a dizer, nossa… E, eu falei assim: “caramba, eu acho que vou ter que fazer alguma coisa, porque as pessoas não sabem ou não enxergam a riqueza cultural, assim. Tantas coisas sagradas que elas tem aqui, preciosas pra gente descobrir quem a gente é”.
Um amigo meu falou, uma vez para mim: “se você quer ser reconhecido no mundo, você precisa cantar a sua aldeia”. É impossível a gente fazer algo bom fora da nossa natureza. Se a gente não descobrir primeiro quem a gente é, o que é que a gente veio fazer. Consciência de quem eu sou… como eu ligo esses pontos? Como eu faço isso? Como eu faço uma harmonia linda, uma música linda com isso tudo daqui, né?! Como eu posso transformar isso tudo em beleza? Em prazer? Em algo bom para o próximo que está passando.
Depois veio o festival Vale do Café, que foi também uma grande junção de pessoas. Um momento de pessoas todas que se reuniram para fazer acontecer. E acho, isso, eu penso muito no que é que pode ser feito hoje, o que é que eu tenho hoje, o que é que eu posso fazer com o que eu tenho hoje para defender as coisas que eu acredito. E, aprendi que muitas vezes a gente fica escondido atrás da reclamação, justamente para não fazer nada. Aprendi por experiência própria. Tudo deve ser feito com arte, tudo. Você pode varrer um chão com arte, você pode fazer um pão com arte, você pode fazer uma casa, embolsar um muro com arte. Arte é um conceito, né?! A sensibilidade, a sutileza, as emoções… eu acho que a natureza ajuda muito isso. Ajuda muito.
Cultura não é uma coisa supérflua. Arte não é uma coisa supérflua. Natureza não é uma coisa supérflua. Então esse jardim, ele foi criado sempre com essa pergunta: “como a gente vai fazer as pessoas entenderem o valor da arte, da música, da natureza?” Foi o nosso grito, assim. Então, fazer as pessoas refletirem sobre a importância desse que é um dos grandes produtos do universo, e do ser humano. E, a gente vai tecendo assim, né?! E, é isso. Mas, eu acho assim, que o Vale é com certeza uma das grandes descobertas que o Brasil tem a fazer sobre ele mesmo. [00:05:31]