Andrade Costa
Ferroviário
“como a terra vai sobreviver se o ser humano destrói a natureza?”
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CLEMENTINO:
Vassouras fazia rumo com Petrópolis. Eram as duas cidades que tinham que faziam rumo. Hoje dividiu, eu já nem sei como é que estão essas divisões mais, entendeu? E não falando mal do município que eu nasci, me criei nele e vivi nele até a idade que estou, né? Mas, Vassouras é muito dificultoso para gente. Tudo da gente é feito em Paraíba.
Trem, a gente ia aqui, a gente aonde a gente quisesse de trem, né? Aí queria ir para Portela, Miguel Pereira, descia a serra, era trem. E queria ir a Paraíba, ou Três Rios, ou Werneck era trem.
Essa linha que passa aí, eu entrei, eu trabalhava nela. Eu entrei na rede foi em sessenta e seis, né? Não, cinco, né? Eu era da via permanente. Arrumar a linha, fazer linha, fazer tudo. Trocamos a trilhagem, dormente. Fizemos assim, tipo como a linha nova. A gente embarcava no trem na Central, a gente comprava a passagem. Aí a gente embarcava, aí vinha saltando nas estaçõezinhas, né? Tinha a parada de Mangueira, vinha Conrado, a estação. Vinha vindo, Paes Leme. A linha vinha saia lá da estação de Portela, lá no alto. Vinha, descia a serra ali. Aquela serra, eu desci muito naquela serra. Pra gente vir para Paraíba, pra Três Rios e pra onde… essa linha aqui ia para o Estado de Minas, São João Nepomuceno. Aqueles cantos tudo para lá.
Era água e lenha, Maria Fumaça. Eu cheguei a tocar aquela máquina. O foguista, não era o maquinista não, o foguista era para botar lenha. Precisava ver aquela serra, como é que o bicho chegava em cima suado de jogar lenha para dentro do… Mas graças a Deus eu trabalhei e aposentei por tempo de serviço, né? Nós arrancamos o ramal de Vassouras, ajudei a arrancar ela todinha, entendeu? Para parar de funcionar. Hoje vários lugares de onde era linha já é estrada de rodagem. Acabou tudo. Já roubaram trilho em vários lugares que já nem tem trilho mais. Aqui mesmo vieram roubando… não tem aquela reta ali? Está pra cá da reta, até ali roubaram tudo, de lá para cá roubaram tudo.
O senhor nem pensa que perda que tivemos, ué. A estrada de ferro tem uma necessidade muito boa, de utilidade que era de primeiro. Hoje perdemos essa facilidade. Tudo é ônibus, né? Que era porque o nome era Estrada de Ferro Central do Brasil, né? Que era o nome primeiro, antigo. Estrada de ferro Central do Brasil. Porque o histórico da Estrada de Ferro Central do Brasil num foi para ser essa safadeza que está aí por causa do dinheiro, não. Foi feito para servir a nação, o povo brasileiro. Mas veio modificando, modificando… Hoje a gente já não sabe nem o que é da nação mais, né? Com essas privatizações disso, daquilo, a gente fica perdido. Por que a rede tinha quinhentos alqueires de terra, nas medidas antigas, toda em mata, tá? Aquilo era tudo da rede. Venderam também. Eu não sei da história, como é que é depois que venderam.
Lá tinha tora de pau, lá, que três homens abraçavam nela assim e não fechava ela. Mas o senhor lembra… o senhor pode não ter ouvido, eu ouvi isto: Que o ser humano é o destruidor da natureza. E que daqui a vinte anos não vai ter mais água. Eu acho que esses vinte anos já passaram, mas estamos vendo que está diminuindo geral.
No meu pensamento, no meu pensamento, eu não sou engenheiro, eu não sou nada. Mas, no meu pensamento é a natureza. O senhor pessoalmente conheceu poucas matas por aqui, né? Mas eu conheci essa mata ali, tem outra nas palmas, que era da terra das palmas, ali atrás. Aqui, descendo para Avelar, tinha outra mata fechada que foi… até o nome até hoje lá é Quilombo. Era uma mata fechada. Aqui na Glória tinha outra. Vai lá hoje para ver se tem, tudo é pasto de boi. Quer dizer, como a terra vai sobreviver se o ser humano destrói a natureza? Vê um pé de pau, corta para fazer mourão. A floresta, ela é tão importante que, a senhora vê, não é em todo lugar que a floresta seca. Sempre tem lá tem um lugarzinho que fica bonito.
Como é que a gente vê onde tem água? É feito com a varinha, essa varinha aqui é quem conduz. Mas tem que ter contato com o coração. Isso aqui da gente tem que encostar aqui. Mas não dá com todo mundo também não. Num é mentira minha não. A gente pega aquele ípsilon de madeira, bota a ponta… roda ele, bota a ponta pra cima e vai andando com a mão aqui, no coração assim, olha, vai andando… Onde tem a água a ponta está para cima, ela vira para baixo.
Essas goiabeiras aí sofriam comigo, entendeu? Aonde eu ia, eu já ia levando, porque podia chegar lá e não achar. E falo a verdade. Aqui não é baixo? Não tem nascente nenhuma d’água por aí mais. Lá no alto da Cotia, lá, tem água naquele alto lá. Então, por causa de quê, que na baixada a gente às vezes não vai achar água e acha no alto de morro? Nós vivemos em cima de rocha de pedra, e a água está debaixo da pedra. Ela só saí onde a pedra tem fenda. O nosso corpo, tem sangue em todo lugar do corpo. Mas quando você machuca a cabeça, não saí sangue do pé, não. Sai sangue da cabeça. Faz de conta que o resto do corpo que está para baixo é a terra baixa, e a cabeça é o lugar mais alto da terra. Então, as pequenas coisas que parecem difícil, mas não é. O difícil às vezes é a gente fazer o certo, não é? A água é muito fácil, é só ver uma moita de capim verde nessa época agora. Como é que ele está verde sem molhar ele? Pé de planta a gente molha todo dia. Mas, como é que… Mas a vida é muito boa, depende de a gente saber viver ela, né? [00:07:56]