Movimento

Edgar Camillo

Arrozal
Mestre Jongo de Arrozal

“O jongo aqui teve uma paralisação de 50 anos, me veio a necessidade do resgate”

ler transcrição

[00:00:00]

EDGAR CAMILLO:  

“Eu moro na Ponte Funda cambaleão, jacaré quer me comer, mas não come não.  Eu moro na Ponte Funda cambaleão, jacaré quer me comer, mas não come não. Erererê, rerê, erêrerê, rererá, oi erêrerê rerê… Machado”. 

Aqui na nossa região é “machado”, o Caxambu já é “cachoeira”. No momento que você gritou machado não se canta mais aquele ponto. Aí, está liberado para quem quiser cantar. A vontade de resgatar veio depois, acho que, eu sei lá, as coisas parecem que ficam na ideia. Nunca dancei jongo, gostei de apreciar jongo, mas nunca dancei. Por que é que eu tenho que resgatar o jongo? Convidei mais três amigos, então montamos o grupo. Aí, depois que nós compramos um atabaque… Agora eu quero fazer mesmo um tambor de tronco. Só que o problema todo é a madeira. O roncador é bonito, aquilo dá uma visão, aquilo dá um som que acho que mexe com a gente, porque, às vezes, a gente está numa roda e a roda está tão boa, os pontos estão tão bonitos, que a gente sente vontade de fazer um também ali na hora, e consegue. Estamos remando, estamos remando de acordo com a maré. Não vai dizer que hoje nós estamos tranquilos, porque tranquilidade não existe para a gente que faz essa jornada de cultura. Porque, infelizmente, a gente não tem um apoio. Hoje, nós estamos aí. Mas amanhã, a gente não sabe. Quem que vai ficar para dar continuidade ao nosso trabalho? Se a gente não colocar, não preparar esses jovens, não tem como. E os trabalhos não podem parar, né?! O mais difícil já foi, que depois de cinquenta anos parado nós conseguimos resgatar e desde 2005 nós estamos pelejando aí. É, o mais difícil foi isso, fizemos, agora parar de vez não tem como. 

Naquela época havia duas bandas, uma de preto e uma de branco. Aí, assim o mestre antigo conta, ia ter um encontro. Só que as mesmas partituras que os brancos ensaiaram, os negros ensaiaram também. Aí, quando chegou no dia do encontro que viram a apresentação que era igual, juntou todo mundo e fizeram a apresentação para todo mundo. Aí, o vice-presidente da banda era um português, casado com uma negra. Que essa negra é até a tia da minha esposa. E, ele não gostava de preto. Não entendi. Aí, ele falou: “vai ter o baile, mas preto não vai poder participar”. Tudo bem. Aí, o que é que aconteceu: tinha o meu primo… os pontos chaves da banda era tudo preto. O baixista, dois baixistas, tinha um no trombone. Aí, o tio desse baixista é o meu primo também. Ele falou: “não tem problema. Preto não vai poder entrar no baile, mas também o meu filho não vai tocar, o meu sobrinho não vai tocar”.  E, os pretos todos retiraram. Isso faltava três dias para a festa. Aí, eles ficaram doidos. Marcavam o ensaio não aparecia nenhum, nenhum dos pretos. Ficaram doidos. “O que é que está havendo e coisa e tal?”  eu falei olha: se os pretos só servem para tocar na banda, participar do baile, do evento, não serve, então ninguém toca também. “Não porque foi um mal entendido”. Deram uma reviravolta lá, liberaram. Daí pra cá, acabou. Acabou aquele negócio. A banda era tão boa aquela época que dia de festa, eu ainda não tocava ainda não… Dia de festa, eles faziam alvorada às cinco horas da manhã aqui, eu lá de casa escutava os números que eles tocavam tudinho aqui. Aí, aquilo me enchia de esperança. Eu falava, vou ter que aprender, vou ter que aprender. Aí, graças a Deus eu tive a sorte. 

“O Pinto piou, cantou fora de hora. Pinto piou, cantou fora de hora. Pra quem mora perto é cedo, oi, quem mora longe é hora. Pra quem mora perto é cedo, pra quem mora longe é hora. O Pinto piou, cantou fora de hora. Pinto piou, cantou fora de hora. Pra quem mora perto é cedo, oi, pra quem mora longe é hora. Pra quem mora perto é cedo, pra quem mora longe é hora. Machado…” 

Boa noite. [00:06:07]