Terra

Geraci Cunha

Vassouras
Benzedeira

“Eu tenho todos os meus remédios no meu quintal, sei que vou viver pelo menos cem anos”

ler transcrição

[00:00:07]

GERACÍ DA SILVA CUNHA:  

Eu aprendi a rezar, foi com uma filha minha, a Adriana. Quando eu vim da escola, do serviço, ela estava em cima da minha cama chorando com fome. Aí eu levei um susto, minha mãe… Aí, ficou doente. Internei no hospital quinze dias. Nada de sarar, nada de sarar, nada, nada, nada. Doente, doente, doente. Morre, num morre, morre, num morre. Aí, eu falei: quer saber uma coisa? Aí, eu levei seis pessoas, seis rezadores. Olha, que ele não conseguiu curar a Adriana, nada. Aí, o que é que eu fiz? Eu peguei a mão dela. Já rezei seis, não sarou. Eu vou inteirar os sete e vai ser eu. Botei ela no meu colo, rezei ela, pedi tudo quanto foi Deus, tudo quanto é santo na minha vida. “É, minha filha, são onze e meia da noite. Quando for meia noite ela acordar, ela vai ser sua. Se passar de meia-noite ela não é mais sua.” Nela fiquei ali orando de onze horas até… quando bateu meia noite em pontinho, ela chorou e pediu a mamadeira. Desse dia pra cá, nunca mais ela ficou doente. Até o dia de hoje. 

Eu aprendi a rezar com toda fé, com todo nervoso e morre ou não morra a criança. Eu mesmo aprendi sozinha. Eu aprendi tudo sozinha. Eu sonho com eles me ensinando, me ensinando. Os meus santos todinhos falam comigo de noite, falam comigo. Eu tenho uma luz, essa luz eu tenho ela há quarenta anos, essa luz. Eu nunca perguntei a ninguém por essa luz que fica na minha porta, aqui dentro. Quarenta anos que eu tenho essa luz na minha porta, aqui. Então é uma luz bonita mesmo, toda amarelinha, vermelha, roxa, uma porção de cor. Ela fica paradinha ali, só fazendo assim. 

Aliás, todos os meus santos eu achei no lixo. Eu não tenho vergonha de falar não. A gente tem que falar a verdade, não mentira. Eu tive um problema aqui na minha barriga, um problema. Eu fiquei nove meses em casa sem poder andar, que eu não aguentava andar mais. Aí, o Sandro, meu neto, meu netinho, ele tinha quatro anos: “Poxa, vó, tem tanto santinho ali. Você reza os outros, vovó, você só tem essa Nossa Senhora Aparecida. Então, vamos levar tudo, vó, quem sabe que você vai sarar. Você vai sarar, vó, leva os santos.” “Ah não, meu filho, vou levar não, botaram ali, ali no lixo, tadinho.” “Vamos vovó, vamos levar, vamos”. “Ah, então vamos, vamos levar então, você vai me ajudar?”  “ah, vou”. O médico falou que se eu operasse eu morria. Se eu operasse eu morria, se eu não operasse também morria. E eu estou aqui, olha. Já há quantos anos? Vinte e dois anos já. O mato que me curou. Eu tenho muita fé, eu tenho fé demais. Tenho mesmo. 

Eu já tenho tudo aqui no quintal, já que já me ensinaram, tudo.  Eu faço um xarope com vinte e sete remédios, com vinte e sete.  Saião, guaco, pitanga, erva-grossa, alfavaca, funcho… Manjericão, folha de limão, a romã, uma folha de manga, assa-peixe, o amarelinho, o chumbinho, amarelinho. Tudo isso eu boto no xarope. Eu cozinho tudo primeiro, escorro ali no escorredor de macarrão. Depois eu coo ele, depois, de novo no ralinho. Aí eu queimo o açúcar e boto a água ali dentro e deixo. E boto tudo e deixo dar o ponto, quando virar um xarope eu boto nas garrafas e dou para as pessoas. Eu faço também babosa, cachaça e mel. Tudo eu faço. 

Eu não sei ler, eu não sei escrever. Nem meu nome agora eu sei mais, que eu desquitei, né, agora. Aí também eu não sei mais, eu também não sei mais, entendeu? E criei seis filhos sozinha, seis. Mas trabalhei muito, mas muito mesmo. E passei a maior necessidade. Passei sim, mas eu venci. Eu capino, eu planto, eu faço cerca, eu faço serviço de obra. Eu faço tudo, eu faço tudinho. Tenho minhas galinhas, tenho tudo que é meu. As pessoas não querem o bem do outro, só querem o mal do outro. Eu só faço o bem pros outros, nunca desejei mal para ninguém. Se você precisar de algo, eu te ajudo, você fica boa. Tudo bem, eu fico feliz. 

Agora vou falar pra você, uma coisa e você pode pensar: as pessoas não pensam que a gente pensa. A gente pensa em fazer bem para todos. Mas muitos fingem que é, mas não é. Tem que pedir lá em cima e aqui embaixo também na Terra. Se ele disser que eu morro daqui pra amanhã, ele vai fazer que eu morra daqui pra amanhã. Se quer que eu viva cem anos, eu vou viver os cem anos. Eu sei que vou morrer só depois de cem anos. Depois de cem anos eu não preciso viver mais não. Já vivi muito, já. O que é meu, não é meu. O que eu tenho não é meu, sabe? O que eu quero é ter saúde, e ir pra frente. [00:05:35]