Terra

Edson Batista

Manuel Duarte
Canoeiro e pescador

“Eu acho que de alguma forma o rio me protege, e acho que é por isso que eu quero proteger ele também”

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EDINHO:  

Eu nasci aqui. Já começa por aí. Eu nasci aqui. Com vinte e sete anos, Deus me trouxe para cá de novo. E hoje eu estou vendo que estou podendo fazer alguma coisa para ajudar, entendeu, a manter esse rio. Ele me mostrou muita coisa boa, entendeu? Muita coisa boa. Mas, é você tentando proteger ele, né? 

Eu acho que ele tem uma conexão comigo muito grande, porque, você vê, eu faço canoa, eu ando de canoa direto nesse rio e nunca aconteceu nada comigo nesse rio. Nada assim de falar assim: pô, quase que eu morri, a canoa bateu ali, passei em um lugar perigoso ali e não aconteceu nada. Isso já aconteceu muito, passar em lugar perigoso, eu achar que ia… não vai ter jeito não, ali eu vou capotar e, quer dizer, eu acho que alguma forma ele me protege também. Eu acho que é por isso que eu quero proteger ele, de alguma forma, do jeito que eu puder, entendeu? 

Há uns, até uns dez anos atrás eu lembro que eu saia à tarde para pescar acará dourado, aqui nesse rio, tinha muito, muito acará dourado. Era um prazer você sentar numa moitinha assim, num lugar mais escondido, que acará não fica em lugar limpo, ela fica numa moita. Você ficava ali pescando meia hora, você podia ir embora para casa. Você pegava oito, dez acará dourada, só acará grande. Hoje não tem mais. Você procura acará… você pega uma e outra, mas entendeu? Raro, que é raro. 

O piau é um peixe que tinha muito nesse rio, também está muito difícil. A cumbaca acabou. A cumbaca é um peixe que só dá na água suja, né? Bem em barro mesmo. Mas você não pega mais. Antigamente, eu lembro que eu punha vinte anzóis, vinte não, até mais, cara, eu já cheguei a colocar mais, numa corda de nylon e jogar tudo lá dentro d’água e deixar meia hora. Aí, eu puxava aquilo, vinha, todo anzol tinha uma cumbaca, todo anzol, não falhava uma. E agora não, agora você pode jogar e deixar, ficar a noite inteira. Você vem de manhã e não tem uma cumbaca pega, quer dizer, está acabando. Ele, ué, quando o peixe esconde, ele tem uma certa hora que ele saí pra comer. Então, nunca que ele está ali? O surubim é o melhor peixe, né?  É o peixe que estava mais sumido. Aliás, é o único rio que eu acho que ainda tem surubim, é aqui. Está certo que o cascudo é ótimo, não tem espinha. Só você pôr um limãozinho. Mas é outro peixe também que está sumindo. E o peixe está mais fraco, sabia? O piau, por exemplo, o piau, se você pegar ele, você tem que limpar ele na hora. Se não limpar, ele começa a estragar. Se você deixar para limpar ele de tarde, ele já fica mole, molenga para você limpar. E o piau é um peixe firme, eu sempre peguei piau. Será porquê? É uma pena, né? O rio estar desse jeito hoje. 

Estou pronto para descer com a turma aí e fazer limpeza, porque eu sei que vai ser bom. Não vai ser só para mim não. Vai ser bom para todo mundo, para um filho meu, para um neto meu amanhã, entendeu? O bonito é isso. É você preparar a vida deles para amanhã, e tentar. Eu sei que é difícil, né? A gente sozinho, ou uma equipe só, conseguir arrumar esse rio do jeito que ele era. Isso acho que não vai acontecer nunca mais. Mas, pelo menos manter o pouquinho que já tem, entendeu? Que ainda tem, né? Que ainda tem… 

A cabeceira desse rio é muita água, né, cara? Muito afluente, muita água. Então, a tendência é, se parar com essa bagunça, é melhorar, né?  A gente não sabe quando, né? Mas, não sabe nem se a gente vai estar aí para ver. Mas, se quiser melhorar, melhora. Mas, fora isso, eu não troco o rio por nada, nem pelo mar. 

Olha, a canoa é o seguinte: você para virar ela para lá, você tem que remar de cá; você para virar ela a canoa, o bico dela para lá, você tem que remar de cá. Quanto mais atrás você levar o bambu, mais ela vira, entendeu? É a única coisa que você tem que saber. É entrar na correnteza e sair, num lugar perigoso. Você nunca entra na correnteza de lado, você tem que entrar sempre com o bico, ou para cima, ou para baixo, na correnteza. Aí chega numa cachoeira, o que é que vai acontecer: se você vê que dá para parar antes você vai se salvar, se você vê que não dá, você faz a mesma coisa, vira o bico para baixo e vai tirando fora das pedras. E, se ela tombar em cima de você, ela dá uma pressão do ar ali debaixo, que você não consegue sair. É, você não pode cair debaixo dela, você tem que sair fora dela. Você viu que ela vai tombar? Sai fora. Mas, o remo é para você remar em água parada, água maneira. Aqui você não consegue subir com o remo porque a canoa fica solta. O remo não vai lá no fundo. O bambu não, o bambu você tem apoio nas pedras para força a canoa para ela subir. 

E assim vai, cara. E assim a gente está, né… falaram que ia fazer mais canoa, né? Perguntaram se eu fazia, eu falei: faço, traz o material que eu faço. Fiz essa aqui, entendeu? Só tem que reunir a turma e comprar o material. Eu não cobro a mão de obra. Isso aqui eu não cobrei nada, não foi? 

Essa canoa aqui, se você tiver cuidado com ela, ela dura entre dez a onze anos. Sempre tirando ela, dando uma pinturinha, entendeu? Não deixando muito tempo no sol, só no sol. Sempre deixando ela com água dentro, um pouquinho de água dentro, nunca deixando ela vazia. Você tem que pôr água dentro dela para poder manter. Que a vida dessa tábua é dentro d’água, o cedrinho. Essa aqui é, cedrinho. Todas que eu já fiz aqui, é. Acho que vou morrer fazendo isso. É por isso que eu tento proteger ele de tudo quanto é jeito, cara. E a minha vida é mais assim, entendeu?  Virada para esse rio. O rio é vivo. Nossa mãe. Ele tem controle do espaço dele geral, né? Tudo, tudo que pertence a ele, é dele, e ele sabe muito mais que a gente. 

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