Vila Nova do Tinguá
Agricultor
“Quando a gente cuida da terra, a gente está cuidando do nosso corpo”
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PAULO:
Eu tenho uma raiz de convivência, da parte da minha mãe, bem antiga. Minha avó, que é mãe da minha mãe, ela faleceu com 114 anos. Ela ainda pegou um pouquinho da escravidão, ainda. A minha bisavó da parte do meu pai era cabocla. Então, dali para cá a gente vem catando alguma coisa, observando de alguém. Então, a gente vê que realmente as coisas vêm se encaixando e a gente vêm adquirindo essas experiências.
Mas a minha trajetória na lavoura foi desde criança. Eu com seis anos de idade, meu pai já me levava para lavoura. E tivemos muita fartura na nossa criação, ainda criança, porque na época meu pai plantava muito milho, feijão, arroz e a gente tinha muita fartura em casa. Tinha porco, tinha galinha com sobra em casa, entendeu? Então, a gente tinha tudo de casa, arroz a gente socava no pilão, milho, a gente levava o milho no moinho, que tinha uma área que tinha um tal do moinho d’água. A gente levava o milho lá, eles moíam, cobravam uma porcentagem, a gente pagava para trazer o fubá, para fazer o fubá, para fazer o angu.
Tudo que se diz semente ou grão você tem que plantar na lua crescente ou na cheia. Tanto o milho, o feijão, arroz, soja, tudo quanto é grão você procura plantar no quarto de lua crescente. E assim nós fomos vivendo a vida. Meu pai sempre foi da agricultura. Eu ainda criança fui matriculado no colégio, mas o meu estudo foi pouco, só estudei até a quarta série só. E meu período mais era trabalhando. E eu trabalhei muito nessa área assim, candeando boi para os outros. Ganhando aquele dinheiro grande, que era cinco centavos por dia.
Ainda na época, a gente morava no terreno da fazenda lá do secretário, lá tinha um terreiro de pedra grande, então os colonos da fazenda tudo plantava feijão e levava para lá para secar lá no terreiro de pedra. E bater com aquela vara, que eles falam, bater com a vara para soltar o feijão da casca. E, na época, a gente ainda criança, o sol quente. O feijão tem que bater com o sol quente. E meu pai era muito bom nesse negócio. E ia batendo, a gente do lado, a gente ia parar ele falava: “não, tem que meter bronca, que vem chuva aí”. E a gente tinha de botar o couro pra comer. Então quando terminava uma safra, que estava chegando a outra, nós ainda tínhamos feijão estocado, e a gente ainda tinha que vender aquele para desocupar, para botar o outro novo no lugar. Assim era com o milho, com o arroz. Sempre tinha estoque velho, a gente tinha de vender para botar o outro novo no lugar. Então foi uma coisa… e todo mundo tinha fartura em casa. E com isso a gente foi aprendendo a gostar da agricultura. E aí, o meu coração ficou na agricultura, o meu DNA é a agricultura.
Às vezes, quando a gente está preparando o solo, a gente está preparando com aquela expectativa de dar tudo certo. Aí você vai lá para o meio da roça, você levanta de manhã cedo, toma seu cafezinho, vai lá para roça. Você está lá trabalhando, você sente aquele cheiro do verde da planta, crescendo. Hoje você sai de lá ela está pequeninha, amanhã você chega lá, ela está grandona. Aquilo dá uma alegria de viver, entendeu? Mesmo que na hora de vender você não tenha um retorno, mas você tem um privilégio de ver aquilo crescer. Você vai lá apanha um fruto sadio para você comer. Isso é uma felicidade, né? Não tem dinheiro que pague essa felicidade. Pena que não é todo mundo que, às vezes, queira ter um pedacinho de terra para plantar e não consegue. Ou outros têm, mas não dá valor. Eu gostaria que quem tivesse terra, desse valor e fizesse a tua terra produzir. Seria… O mundo seria outra coisa.
Aqui mesmo, quando nós viemos para cá, há trinta… vamos fazer trinta e sete anos aqui, esse rio nosso que passa aqui, que é o rio Alegre, tinha poço aqui com dois, três metros de fundura, muita água. Hoje você não encontra meio metro d’água no rio. Então está acabando mesmo as águas. Então há uma necessidade de quem tem as suas propriedades reservar uma área para deixar reflorestar, para poder segurar as nascentes, senão vai acabar tudo, senão não vamos ter respostas para nossos filhos, para nossos netos, que vêm, né? Então, a gente tem que deixar alguma coisa de bom para eles também. Não é a gente explorar tudo, chegar ao ponto de nós morrer e deixar eles também à míngua, aí não funciona. Se a gente gozou do bom aqui, tem que deixar o bom para eles também.
Se eu tivesse acordado há mais tempo, eu tinha despertado, a minha ideia era não usar o agrotóxico há muito tempo. Porque tem muitas alternativas hoje que dá para você produzir sem o agrotóxico. Eu pego as folhagens ou a capina que eu faço, eu não queimo, ou eu abro um sulco e enterro ele, aquele capim, ou eu deixo num canto, ele apodrece e eu espalho ele no solo outra vez. Onde a gente faz isso, você pode ver que a minhoca, fica uma minhoca bonita e onde não tem isso não tem minhoca. E na parte da pulverização, a gente usava aquela máquina costal, entendeu? Não tinha um acompanhamento técnico, então a gente ia lá nas lojas comprava o agrotóxico e vinha e jogava nas plantas de qualquer jeito aí, sem proteção nenhuma. Aí chegou um ponto de eu ficar intoxicado. Tive de parar no hospital a primeira vez, aí tudo bem. Na segunda vez, quase que eu morri. Aí dali para cá, eu me despertei com isso. Então hoje o que eu produzo é tudo natural, me sinto bem, as pessoas que compram comigo também gostam, quando eu falo que é tudo natural, sem agrotóxico nenhum, a pessoa gosta, né? Mas hoje tem muita coisa falsa que a gente está comendo aí, sabendo que é só problema. Óleo de soja, como você vai comer um óleo de soja você bota na panela, você bota fogo, ele pega fogo igual borracha? Não sei se você já fez esse teste. Então a pessoa tem que acordar para esse lado. Se todo mundo vier para o lado orgânico, a qualidade de vida vai ser outra, a saúde vai ser outra coisa. Os hospitais não vão ficar tão cheios, conforme a gente vê que está. Então, quando a gente cuida da terra, nós estamos cuidando do nosso corpo.
Esse milho aqui, é o milho crioulo. Esse milho aqui, ele tem uma história longa. Isso aqui, no tempo do meu bisavô ele já cultivava esse plantio de milho. Ele é mais resistente para guardar, ele não dá caruncho igual ao milho híbrido. Porque o milho híbrido, você colhe ele na roça, se você colher ele seco, ele já sai todo carunchado. Esse aqui não, você espera ele secar e você colhe ele, você pode ver que as espigas, o caroço ó, tá todo ó, sãozinho.
Que nem, no caso que eu falei da minha bisavó, que era cabocla, a minha avó era índia, no caso, ela foi pega no laço. E foi um sacrifício para ela aceitar o meu bisavô como marido então na época, entendeu? Assim, o meu avô contava e meu pai passou isso para a gente. Então a gente tem uma origem indígena. Querendo ou não, a terceira e a quarta geração pega, né? Essas coisinhas que vêm lá de trás. Então, na minha mente, esse milho aqui ele tem, mais ou menos, uns trezentos e cinquenta anos de cultivo. Ainda está germinando, ainda. Tudo disso aqui. É um dos melhores milhos que eu conheci na minha vida, é o milho crioulo. Como é que eles lutaram para eles conseguirem esse milho? Porque você sabe que índio é uma pessoa trabalhador, inteligente e isso aqui são de origem indígena. E eu fico feliz porque eu também estou participando das coisas indígenas. Então… Está na veia, né? É… Está na veia. [00:07:43]