Identidade

Rastricinha Dorneles

Paty dos Alferes
Artista e cineasta

“Eu quero construir casas de João de Barro em muitas praças do país. É sobre entender que podemos pertencer a rua.”

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RASTRICINHA DORNELLES:  

Quando eu penso a minha trajetória aqui, eu não penso em mim, eu penso na minha família mesmo. Realmente, já se amplia quando eu penso nessa região em Paty do Alferes. Parece até uma mitologia mesmo. Tipo, eu fui criado por uma avó que não sabia ler e escrever, pelos primeiros anos na minha vida. Ela assinava o nome dela, ela tinha um densenrolo ali, mas não tinha alfabetização, nem ela e nem meu avô. Existia acho que num primeiro momento, esse casamento, muito de um casamento heteronormativo, né? Onde o homem trabalha, a mulher cuida da casa e essa casa, ela era de pau a pique. E a minha avó, o que a minha mãe relata… de que eles brigavam, eles brigavam por causa disso, muito.  Da vida que ele podia dar pra ela. Ela trazendo: “eu quero uma casa de tijolo, eu não quero uma casa de terra”. E aí, ela terminou com ele pra ir com o marido que poderia dar a casa de tijolo. E, aí vem meu avô Elói. Depois de muito tempo ela consegue o tal marido que constrói a casa de tijolo pra ela. Que foi para mim o meu avô, porque já é essa geração, eu aqui onde eu nasço e tal. 

E eu acho que o momento que a indústria chega aqui na cidade através dos meios de comunicação, ela cria esse paradoxo. Que a vida que ocorre aqui, não é a vida que está nos meios de comunicação. Que aí vem a minha avó, do tipo assim: “Eu quero a vida da TV, eu quero a vida que eu estou vendo no mundo.” Sabe? Tipo, é isso, para uma mulher que queria o mundo, a minha avó, ela tinha essa ambição de ir mais longe do que Paty do Alferes. De tipo, cresci aqui, nasci aqui, mas eu vou mais longe. E acho que toda essa ambição, é o que eu herdei da minha avó. Porque lá nos primeiros anos ela me botava de frente do Silvio Santos e a gente ficava ali vendo a televisão, focando, sabe? Focando, tipo assim, é isso, aquele modo de vida. Eu falava com quatro ou cinco anos que eu iria trabalhar para o Silvio Santos. Tipo assim, tinha esse foco, essa mente, esse objetivo que vem muito dessa janela do mundo. Que a televisão trouxe muito forte. 

E aqui, eu acho que principalmente para geração da minha avó, a infância era mais curta, sabe? Realmente, com onze, doze anos já era hora de começar a trabalhar. Então, desde novo ela criou muito em mim isso, de que eu não ficaria aqui. Que poderia ser um lugar de colo, mas que não é um lugar de futuro. Não era um lugar de futuro, de próxima etapa. Então, acho que traz muito essa característica de eu ser a personificação dos sonhos da minha avó.  Mas a minha geração está casada, não estudou como eu estudei, não viveu como eu estudei. E aí veio um outro debate, que a minha criação… Tipo, como se tornar artista? Como ser uma pessoa que vende arte, que produz arte de uma forma comercial com essa origem, com essa trajetória. Então, por muito tempo eu me neguei. Tipo, eu entendia que arte não era pra mim então eu fui estudar psicologia. Foi tipo assim, não, eu preciso de uma coisa mais séria, eu não tenho sobrenome pra isso. Então, eu comecei a produzir arte mais sério quando eu tenho um episódio de ver uma imagem de Nossa Senhora no meio de um supermercado, dentro de minha cabeça e quase paro num manicômio. Então, foi muito difícil para mim esse primeiro momento de falar: “Putz, saí de Paty de Alferes, estou aqui na faculdade e fiquei louco.” E aí, eu venho, eu retorno para cá a primeira vez de adulto. Que eu só vim por causa do episódio do surto. Que foi um processo, tipo assim, cara, eu preciso recuperar minha identidade. Porque, você vê uma imagem que está dentro de sua cabeça, você fala: quem sou eu? Tipo assim, como é que eu não estou produzindo imagens, né? E aí que eu falei, eu sou um artista. Isso foi um conflito muito grande para mim, mas que faz com que eu retorne aqui. E acho que ele já foi um marco muito importante para entender que quando você volta para o seu lugar de origem, você se reencontra com você. 

Tem uma coisa que é a sua terra. E eu tenho uma ligação muito forte com a coloração do barro, assim. Eu sempre vi esse barro da mesma cor que a minha pele. Então, acho que esse processo foi muito importante para eu me sentir são.  E foi muito bom. Eu estou até muito feliz de estar aqui, de me rever nesse lugar, nesse espaço, assim, de estar exatamente nesse lugar que eu estou aqui agora, sentado. Onde muitas memórias da infância vêm vindo e entrando assim. E, tipo, pensar assim, artista todo ser humano é. É real. O passarinho não canta, gente? É parte dos nossos processos biológicos fazer arte. Seja para seduzir, para encantar, para alimentar, sabe? A gente é isso. Isso é parte do que é estar vivo. 

O joão-de-barro é uma proposta de performance, e de uma performance do cansaço. Eu quero construir uma casa de joão-de-barro em tamanho humano para ficar em praças. E eu não sou só minha avó, eu também sou meu avô. E, nesse processo, é para ele que eu quero fazer um joão-de-barro, em homenagem a ele e tal. De entender que ele era um agricultor, que ele construía as coisas com a mão dele e que ele alimentava as pessoas com a mão dele. E eu era a minha avó, quando ele estava vivo. Sabe? Eu não queria ficar na casa dele, porque eu achava que era pobre mesmo. Até, eparrey! que vem um raio ali, do meu ancestral.  Eu achava, eu concordava com a minha avó. Tipo assim: “Ah, não, aqui não tem luz, aqui não tem TV.” A gente não entendia o valor que aquilo tinha, porque eu era uma criança, eu acho que ele morreu quando eu tinha treze anos, assim. Então, de certa forma eu busco hoje me reconectar com meu avô Paulo, para dizer para ele: “cara, uma casa de barro para mim estava bom, está tudo bem. Só minha avó que estava com essa questão.” E hoje, eu acho que para ela também estaria bom, sabe? Era uma coisa do tempo mesmo, da ingenuidade. Que eu acho que a ganância, ela faz muito parte da ingenuidade. Tipo assim, você acreditar que você vai ter mais do que você já tem. Quando na verdade você já tem tudo, né?
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