Sacra Família do Tinguá
Agricultor Sintópico
Eu gostaria de participar do resgate da primeira civilização que realmente colonizou aqui o Vale do Café, que foi a floresta.
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SÉRGIO OLAYA:
Em todo lugar que eu vou, eu fui na fazenda do Seu Pedro. Eu fui visitar. E a primeira coisa que vejo são construções antigas do século XIX, e eu pergunto: o senhor sabe que madeira é essa aqui? E, ele fala: é um araribá. E o trilho do trem que passava aqui? Era de peroba rosa, ou então era de maçaranduba, ou então era de aroeira. Então, assim, a arquitetura é um conto também. Se você chamar uma pessoa que tenha habilidade, ela fala: poxa, aqui é um ipê, isso aqui é um jacarandá. Então, ele está contando, porque, provavelmente, pelas circunstâncias históricas eles não podiam trazer madeira de muito longe, né?!
Eu brinco que o erro no diagnóstico é dizer que aqui foi o Vale do Café. Porque a riqueza é que se sobressaí, a riqueza, o barão do café. Mas o café, ele só pôde existir pelo metabolismo, do subproduto do metabolismo da riqueza do solo que a floresta deixou. Devia se chamar barão do solo herdado da mata-atlântica. Aí, a gente teria um diagnóstico mais simples.
É fácil de sustentar uma economia, quando você tem duas coisas básicas, que é a água e a matriz energética fóssil. Eu quero ver você fazer, aumentar os recursos sem usar a herança. A gente tem que realmente trazer essa coisa viva, porque se você não conhece os processos históricos do qual você faz parte, dificilmente você faz um diagnóstico dos problemas e você fica sempre no sintoma. Aí, você, a gente vive nessa cultura sintomática e pra você resolver um problema, você analisando o sintoma friamente, sem a sua complexidade, como vocês estão trazendo aqui também, você abre mais dois novos problemas. Isso é histórico: “ah, eu vou fazer isso aqui”. Aí, pronto, aparecem dois novos problemas, né?
Então, eu vejo que uma das coisas, que é o mais difícil de se ensinar agrofloresta, é porque eles não entendem, não têm uma cultura de floresta, não conhecem o próprio processo histórico da floresta. Como o berço da civilização. É a floresta que nos criou, nós somos o subproduto do metabolismo da floresta. O nosso corpo pode te dizer isso. Porque você precisa beber água doce, limpa. Se você beber uma água qualquer você morre. E quem fez a água doce, que nem sempre esteve aqui, foi a floresta. O seu corpo, a sua pele, ela não tolera gradientes de temperatura porque a floresta é um termóstato natural. O primeiro homem surgiu na beirada de uma árvore. Ele não podia ficar no sol o tempo todo e nem num lugar frio o tempo todo. Então, eu brinco com as pessoas o seguinte: vamos fazer uma analogia com a própria ideia de cidade. A cidade surge com o advento da agricultura. Porque eu não preciso mais caminhar, eu consigo produzir até um pouco mais do que eu preciso comer. Mas aí, a casa, aquela casa que era uma casa mambembe, de três meses, já não serve mais. Eu preciso ter uma casa um pouco melhor, mais estável, que dure mais tempo. Surge de uma plataforma que tem estabilidade de recursos para sobreviver, uma especialização que é o pedreiro. Aí, do pedreiro, surge uma outra especialização, que é o cara que faz a telha para o pedreiro usar, a olaria. Aí, surge um cara que faz ferramentas para melhorar a vida do pedreiro, do cara da olaria e do próprio agricultor. Quando você tem estabilidade, quer dizer, comida, água, temperatura, a tendência é surgir novas células. Só que numa visão humana, num tempo cronológico aceitável para gente, que o resto é difícil, geológico… Então, assim, até o músico, ele surge ligado para essa condição de estabilidade do que está acontecendo. Se o músico não entende isso, quer dizer, se a música dele não é em prol da comunidade para manutenção dessas coisas que mantém estáveis todas as células. E ele começar por vaidade, ou por loucura, ou por desconexão, aí a comunidade se desmancha inteira.
Então, eu vejo a floresta como uma civilização. Então, eu estou tentando criar uma metodologia, por exemplo, você vai em Paris, você tem lá o Museu do Louvre que era a casa do rei, você vai nas pirâmides do Egito, tem uma pirâmide. Você vai… E na floresta tem um jequitibá! E a gente tem que entender que isso é uma civilização, ou foi uma civilização, das mais, assim, inteligentes que teve, como ecossistema. Inclusive, nós fizemos parte dessa civilização, e por algum motivo nós fomos expulsos, ou a gente quis sair, não sei o que é que aconteceu. Então, eu gostaria de participar do resgate da primeira civilização que realmente colonizou aqui o Vale do Café, que foi a floresta. E todos os índios, os bichos, os… são resultado desse metabolismo que a floresta cria, essa plataforma estável para que novos seres possam surgir. E isso, a gente não pode, assim, plantar a floresta dentro desse processo civilizatório que nós estamos: “Ah, vamos plantar a floresta porque dá mais dinheiro agora, ou então por que a gente consegue recuperar o café, porque aumenta a água…” Não é bem isso que a floresta fez. A floresta, ela trabalha baseada em algum tipo de amor, que a gente pode falar. Que é o seguinte: ela não é excludente, ela inclui. E ela trabalha, todos os seres que participam trabalham em prol da comunidade.
Você já não vê mais aquela planta que as pessoas chamam de praga, você não vê mais a formiga como uma coisa que você tem que excluir do sistema. Você começa a ver o trabalho que ela faz e tudo. Então, o amor que te une por uma comunidade que não é mais humanoide, mas que do qual você faz parte, brota uma ética e uma moral espontânea que é, vamos dizer, mais natural.
Então, eu acho que a gente pode recuperar, pelo clima, pelas condições que eu vi aqui, as árvores, em quatro anos, cinco anos, se todo mundo quiser, nós temos outra paisagem nos morros. De uma maneira bem mais barata do que a gente aprende, de plantar mudas. Se você respeitar a sucessão ecológica e jogar as sementes de drone e tudo. Em cinco anos, nós vamos ter uma paisagem muito diferente, do que nós estamos tendo. [00:07:45]