Zona da Mata (MG)
Produtora e gestora cultural, poeta e escritora
“A devastação dos povos originários era tanta que durante o tempo foram se escondendo para sobreviver”
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ZÉLIA PURI:
O povo originário continua existindo e não deixa de ser o que é porque está de bota, de carro, de skate, de celular. Índio não é só pena e cocar. É muito mais do que isso. Em determinada época da história, o índio deixou de existir para existirem os pardos. O quê é que eram os pardos? Eram os índios. Lógico, misturados, óbvio. Mas grande parte deles eram os índios que não se identificavam mais, para não serem mortos. E aí, para eles não existirem mais, criaram os pardos. Que na verdade é a grande capa de invisibilidade. Porque pardo não existe, em lugar nenhum no mundo. Então o que é que é ser pardo? É ser ninguém. Você já nasce sendo ninguém. Eu falo isso nas minhas palestras. A minha certidão de nascimento, está escrito lá, “pardo”. Mas, eu não sou pardo. Não é? Eu não sou pardo, porque eu sou eu, eu existo, eu estou aqui. E se pardo não existe já… quando me registram já falam, essa criatura não existe. Oficialmente falando.
Eu sempre fui a diferente. Porque, muito morena. Se eu pegar cinco minutos de sol, eu fico vermelha. Preta, né? Preta, de cabelo liso, escorrido. Mas eu não era branca, eu não era preta. Então eu não tinha um lugar. Eu estava sempre à parte de um conjunto. E aquilo me incomodava, mas eu não sabia o quê é que era. Até o dia que eu tive a consciência de que o que eu buscava era nada mais, nada menos, do que a minha identidade, que eu não tinha.
Nunca se diz da contribuição indígena na cultura brasileira. A base da cultura brasileira é indígena. O índio sempre construiu as suas ocas que não caiam. Se você olhar lá, os trançados deles são perfeitos. Ele sempre construiu… fez as suas construções de vida e nunca teve faculdade. Os indígenas, eles eram tratados pelos pajés, que tratavam com ervas. Eles não matavam as pessoas. Em aldeias não tinha hospitais, tinham tendas de cura. Você está entendendo? E aí, me diz, como é que um povo desse é selvagem? Não é. É um outro tipo de conhecimento. Por exemplo, as pessoas não param pra pensar. Todo remédio que se toma, é vindo de ervas, de plantas. E da onde veio esse conhecimento? Dos indígenas. Você entende? E outra, esses remédios são, a grande maioria, feitos com as nossas plantas e que são patenteados, não do Brasil. E aí, eu pergunto: quem é selvagem?
Mas os povos originários eles não escreviam. Os seus conhecimentos eram passados oralmente, de geração para geração. Se você vê todo o conhecimento que hoje é acumulado nos museus, nas universidades, nos grandes livros, nas grandes enciclopédias, vêm de onde? Vem dos saberes dos ancestrais que foram colocados nos livros. Isso é bom? Isso é maravilhoso, porque preserva. Agora, por outro lado, os povos originários, eles não têm esse tipo de armazenamento. Então todos os saberes, eles eram transmitidos oralmente, de geração em geração. Obviamente acompanhado da vivência daquele que está relatando. Então, isso vai criando um bojo, vai criando um conhecimento, uma bagagem de conhecimento gigantesca. Hoje, a gente está procurando criar também um acervo escrito. Se o povo branco só acredita, e só entende, o que está escrito na casca da árvore. Nós também escrevemos na casca da árvore. O papel vem da árvore. A história é do jeito que ela foi, do jeito que ela é. Contada por quem viveu.
Eu costumo dizer que a identidade, a ancestralidade a gente traz tatuados, são memórias tatuadas no corpo. No sangue e no corpo. E todos nós nascemos com as tatuagens ancestrais. Toda a sua sequência ancestral está ali. Então, a minha mãe nunca falou que a gente era índio. Embora, ela, como índia, criou a gente como índio. Mas nunca disse que a gente era índio. Aí, você pergunta: Por que, que ela não falava? É simples, a devastação dos povos originários era tanta, tanta, que de geração em geração, dos povos, eles foram se escondendo pra sobreviver.
Qual é o meu sonho? O meu sonho é que o homem comece a fazer o caminho de volta. Todos comecem a fazer o caminho de volta. Para dentro de si mesmo. Porque, com isso, automaticamente gente… eu falo as pessoas não acreditam, mas quando você começa a fazer esse caminho de volta, você começa a valorizar o que de fato tem valor, que é a vida pulsante. E aí você sente, de fato, o que que você é. Nós somos energia pura. E, se você não troca energia, ela fica estagnada. O quê que acontece com a água, quando fica estagnada? Ela apodrece. A energia da gente sofre um tipo de apodrecimento. O que é esse apodrecimento? É a perda da sensibilidade, entendeu? Você se acostuma com o não ter. Porque o ser humano, ele é uma criatura perfeita, ele se acostuma com tudo, até com o não ter. O ser humano está perdendo a sensibilidade. Mas ele não pode, porque ele é energia. O quê que a gente tem que fazer para que essa energia volte? Ela tem que começar a ser bolinada, mexida. Como é que a gente faz isso? Passando a viver de novo, porque o povo não está vivendo.
A base do povo originário é uma só. É a liberdade de viver no meio que ele está. Eu acho que essa é a base do povo originário. Todos eles têm a mesma mentalidade. A preservação do meio ambiente e a sua vida natural. Todos eles pensam isso. Então, essa pra mim é a base do povo originário. Eu acho que isso é que liga todos os povos, independentemente da sua etnia.
Eu fiz o meu trajeto de volta para conseguir me reencontrar. A partir desse momento, eu consegui lembrar muita coisa na minha vida que aconteceu, que eu não sabia o porquê, e que hoje eu valorizo demais. Que é a vida simples que minha mãe levava e que nós levávamos. E que é a vida real, porque nós estamos aqui pra viver. Não é pra comprar BMW. É pra viver. E o que você precisa pra viver? Você precisa do mínimo. Só que o homem, hoje em dia, ele quer sempre viver e ter o máximo e pra isso ele destrói a essência da vida, que é a mãe natureza. [00:07:57]