Movimento

Adenilson Sombrão

Vassouras
Mestrando da Escola Abadá Capoeira

“O brasileiro tem a visão de que a capoeira nasceu na África, meu mestre fala que a capoeira engravidou na África e nasceu no Brasil”

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SOMBRÃO:  

O brasileiro tem a visão que a capoeira nasceu na África, né? Na realidade, a gente conta, o meu mestre fala o seguinte: “a capoeira engravidou na África e nasceu no Brasil, né?”. Foi aqui onde ela se difundiu, mesmo.

 E no ano passado eu tive a oportunidade de ir para Angola. Fui para um grande evento em Luanda, foi um encontro nacional lá. Depois teve um evento nas províncias, que é onde conheci Cabinda, Benguela, Huambo, Huíla. Onde eu conheci algumas lutas semelhantes à capoeira que era o N’golo. 

Às vezes, as pessoas tem uma visão de Angola, da África, de aquela coisa de pobreza. Tem também, mas não é em todos os lugares. Luanda tem muitos lá que são empresários, assim que você vê, negros empresários em condições de vida muito boas, sabe? Mas aí se você vai para as aldeias, para as províncias, você já vê que as pessoas já preservam mais a essência, as tradições, entendeu? De manter viva aquela tradição. As danças, a cultura mesmo do local. Tudo é um conhecimento, tudo é um enriquecimento, né? 

Acho que qualquer viagem que você faça, qualquer coisa que você… é um aprendizado, né? E você chega aqui com mais garra, né? Com mais vontade de trabalhar, entendeu?  Porque às vezes você se pega meio desmotivado, entendeu? Devido a tanto investimento e não ter retorno, né? E se a gente não montar um espaço cultural que agregue todas essas manifestações, muitas dessas vão acabar. Então, a gente está o tempo todo… e a gente tenta passar, deixar bem claro para eles, a importância que eles têm na sociedade com a manifestação. Porque muita gente tem preconceito, tem vergonha.

A gente vê os jovens hoje, e às vezes eles têm vergonha de botar uma roupa de jongo, né? D e dançar o jongo, com medo do que as pessoas vão achar, entendeu?  Que é uma coisa, que acaba sendo uma ignorância. Mas se você fizer um trabalho de base com a geração mais nova, eles vão se sentir importantes na sociedade e vai quebrar isso. Porque através das manifestações culturais, você faz com que o adolescente, ou o jovem, ele entenda um pouco mais das nossas raízes, da nossa história, da história do Brasil. E quebra um pouco essa questão do preconceito, né? Que a gente sabe que ainda tem muito hoje. A capoeira hoje ainda sofre muito essa questão do preconceito. Então, assim, ele tem que ver outras pessoas fazendo, ver funcionando, para poder… Não, eu não preciso ter vergonha da minha cultura, da minha arte, entendeu? Por isso que é importante esse trabalho de base. Eu não vou negar que eu sou negro, eu não vou negar minha história, entendeu? Então, você não pode negar em momento algum, a sua própria história. Acho que isso que é o mais importante. 

Então, se você parar para ouvir o jongo, como é que é a história do jongo? A história da caninha verde? A gente tentar unir todas as manifestações. É o nosso sonho: ter um espaço que se reúnam todas as manifestações culturais, entendeu? É o que vocês estão fazendo agora. Olha o quanto de conhecimento que vocês não vão adquirir? 

Eu, por exemplo… é igual a questão de religião, a minha ex-esposa era do candomblé, sabe?  Então, eu frequentei durante muito tempo com ela. Então, assim, me fez ter outra visão da religião. Não que eu tinha preconceito, mas eu desconhecia a história. Então você que é uma coisa bonita dos Orixás, você passa a entender e você fala: Poxa, nossa, que história bonita. Mas as pessoas tem uma história assim: “Ah, não, o espiritismo é… eles cultuam o diabo”. Essa coisa, né? É a ignorância. Mas aí você passa a entender. É o que estou te falando, você tem que tentar moldar as pessoas, para poderem, as pessoas, entenderem um pouco da nossa história. Ter isso aqui, esse bate papo. Você imagina se a gente conseguir fazer isso dentro do museu, um bate papo desse, quantas pessoas não vão mudar a visão em relação às manifestações culturais, em relação à religião, de quem é espírita. Muda muito, cara. Muda tudo. [00:04:26]