Rio de Janeiro
Pesquisador dos Reisados Brasileiros
“Como a gente sabe a cultura, sai de um ponto e quando vai pra outro sofre influência local”
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AFFONSO FURTADO:
O que é folia? É uma palavra complicada. Muito bonita, bom… é obviamente que no início a gente entende a folia como manifestação folclórica. E fica só nisso. É uma manifestação folclórica de caráter religioso e popular. Não é? Isso é oque está nos livros aí. Ela procura retratar as viagens dos Reis Magos, do Oriente até Belém para fazer adoração ao Menino Deus recém-nascido. Isso praticamente está na boca de todas as pessoas, isso aí. Se você for perguntar a um antropólogo, realmente ele vai dizer que é um ritual do catolicismo popular. É um ritual. Eu parti do princípio de que essa tradição, ela nasceu no âmbito das catedrais europeias, da Igreja. Até porque os livros mais antigos sobre os Reis Magos foram feitos, as menções, por dois integrantes da religião. Aqui você tem a profecia de Balaão. Nessa profecia de Balaão disse que uma estrela nasceria na casa de Jacó, e eles associaram essa estrela ao Menino Deus. Essa estrela guia ela induz aos três Reis Magos, tá vendo aqui as coroas. E a partir dessa estrela, eles determinam a história, a arte e as tradições populares. Está aqui o nosso reisado.
Primeiramente a Igreja Católica lá na alta Idade Média, ela começou a usar o teatro, a encenação para doutrinar os fiéis. A primeira doutrinação, obviamente, foi a da morte de Cristo. Vamos dramatizar também a visita dos Reis Magos ao presépio. E esse presépio entrou nas casas todas: na Igreja, nas casas, até nas cidades e também no meio rural. Isso alavancou muito a permanência dessa tradição. Aí, houve aquele cisma da religião Ortodoxa com a Católica. Aí, Santa Helena resgatou os ossos dos Reis Magos, aí os alemães pegaram os ossos e levaram para Alemanha. Construíram essa grande Catedral da Alemanha. E puseram os ossos daqueles Reis Magos dentro desse que se chama o relicário dos Santos Reis. Então se você for lá na Catedral de Colônia, está lá esse relicário, tá? Aí, dia seis, esse relicário saia na rua, a procissão. Aí tinha lá os diabinhos, estavam lá os mascarados, os Reis Magos… Essa tradição se espalhou pela Europa. Todas as catedrais passaram a fazer isso. Ritualizar dentro da Igreja, depois para as praças, depois para os lares. Então aquela tradição que era feita dentro da Igreja, passou a ser realizada na rua. A doutrinação ficava mais emblemática. Era uma romaria muito grande para Colônia.
E obviamente que as organizações religiosas começaram a levar essas práticas para os países. Para a Hungria, a Holanda, para os países vizinhos, para a Península Ibérica. E aí, chegou em Portugal essa tradição que os Villancicos, que eram grupos que visitavam todas as casas. Você vê que começou lá na rua, foi para as praças e agora começou a ir pros lares. Não tinha lugar para encenar isso na zona rural, tinha que levar lá a mensagem do nascimento, do natal, do nascimento. E quem levava isso? Os Villancicos, os reiseiros, os reis, as reisadas. Aí vieram, vieram para Ouro Preto, quer dizer, no caso Vila Rica, São José Del Rei, Sabará. E, na verdade, a gente sabe então pelas informações que foram os colonos portugueses, os reinóis, que trouxeram essa tradição para o Brasil. E, de repente, o que aconteceu? a extração do ouro do Brasil começou a declinar. Era feita de maneira predatória. As minas começaram a não produzir o que era. Então… “Ah é? Ah, minha gente lá no estado do Rio está crescendo a indústria do café. Oh, vamos para lá”. Então, eles vieram para aqui. Como a gente sabe, na cultura ela sai de um ponto, quando já passa para o outro lá ela já sofre a influência local, tá? Aqui, por exemplo, aqui o calango é muito forte, consequentemente o ritmo das folias absorveu esse tipo de cantar, o calango. Agora chegou um ponto que a cafeicultura também foi pro poço, não foi pro poço? Não foi pro buraco? Colhendo café lá naqueles morros, a produção de colheita é cara. Vem aqui para Paulista que aqui é tudo… Ribeirão Preto, Campinas, aqui é tudo bom, terra roxa. Ah, foram para lá. Não foi? E a folia foi atrás também.
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