Movimento

Averaldo Meirelles

Werneck (Paraíba do Sul)
Ceramista

“Quando você tem o domínio da cerâmica, aí o universo é infinito.”

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MEIRELES: 

A região aqui sempre foi dominada por tijolo. Aqui em Paraíba, no município de Paraíba, tinham vinte e sete cerâmicas de tijolo. E naquele tempo, o pessoal trabalhava muito dentro do forno, tanto para encher, quanto para esvaziar. E o indivíduo ficava muito tempo exposto ao calor, muito calor. Mas as pessoas pegavam, não tinha outra opção, né? Hoje muita gente não quer nem saber disso. E você para se tornar um oleiro capaz de atender as necessidades da profissão é demorado, bem demorado. E eu não assumi essa função por querer, foi uma coisa que foi jogada na minha vida. 

Quando eu comecei a trabalhar com cerâmica o meu pai já era falecido.  Ele trabalhava na fazenda, ele era… trabalhava na agricultura. E a fazenda plantou um milhão e duzentos mil pés de eucalipto. E tinha que ser combatida a formiga se não ela não deixava… Eles botavam formicida com água dentro do buraco da formiga, abria um furo na frente da onde estava o buraco, e aqui eles botavam fogo. Aquilo dava um estouro lá dentro e esse estouro o veneno matava a formiga. Naquela época era violento, não existia proteção e nem instrução, todo mundo usava de qualquer jeito. E meu pai foi vítima disso. E com pouco tempo ele faleceu com intoxicação de veneno. 

A vida quando você entra em determinada situação, isso é para qualquer pessoa, você tem sua atividade profissional e você também. E, nessa atividade, várias coisas te provocam: para melhorar ou para desistir. “Ah, mas vamos fazer aquilo ali, aquilo lá é melhor que isso aí.” E, às vezes, muita gente que não tem uma certa firmeza naquilo que ele está fazendo, ele parte para outra coisa. Em algumas vezes dá certo, em outras não. Eu tive várias oportunidades de fazer outras coisas. Mas a minha prioridade sempre foi cerâmica, eu poderia ter ido para uma outra coisa e ser melhor ou não. Mas eu fiquei sempre em cerâmica mesmo. 

Por um lado, eu até dei sorte, né? Porque muitos colegas meus se dedicou a fazenda, ficou cuidando de boi e capinando lavoura. E eu ainda tive a felicidade de vir para a cerâmica, aprender a profissão e continuar trabalhando com isso. E cerâmica, quando você tem o domínio de trabalhar no torno, a sua cabeça é que manda. Você bota o barro ali, estica, você está pensando: “eu vou fazer isso assim, assim.” Aí, faz uma peça que você imaginou,  entendeu? 

Quando você tem a necessidade de fazer, aí você pode ter o problema que tiver lá, mas chegou aqui, você se concentra naquilo que está fazendo. Agora, quando você… Eu, por exemplo, eu sou o dono, né, eu que criei tudo isso aqui. Aí, você tem uma série de coisas para pensar. Tem vezes que eu estou fazendo um vaso reto, de repente eu afundei o vaso e fiz um vaso diferente. Eu falo: “opa, não é isso que eu estou fazendo.” Então, isso tudo acontece, pode acontecer, entende? Porque eu vou te ensinar a fazer uma peça comum, aí você vai fazer. Quando você tiver o domínio de fazer ela comum, aí você faz o que você quiser, entende? Aí o universo é infinito. 

Eu fui adquirindo ao longo dos tempos, como eu disse, através de experiência, eu não estudei para isso. Foi a prática que me levou ao conhecimento que eu tenho hoje. O barro, o fogo e a temperatura, tem que ser tudo relativo. 

Primeiro, é preciso ter o conhecimento de qual é o barro, que força tem essa ou aquela argila. Porque muda muito a argila. Você tira uma argila aqui, depois você tira ali na frente a mesma argila, já não é a mesma coisa dessa aqui. Ela muda, muda muito. E cada argila a gente tem que estudar ela, para poder fazer o material que a gente precisa. E antigamente era assim, não tinha panela para se fazer comida, não tinha nada, era tudo feito de argila. E dessa forma, eles pegavam o biscoito, iam fazendo as peças e tal, preparava, queimava, não queimava num forno assim, queimava… fazia um buraco no chão, botava as peças ali dentro e queimava no chão. 

Aonde eles colocam o oleiro na Bíblia é que você tem a oportunidade de moldar, ou modificar aquilo que você vai fazendo. Entende? Aí você está fazendo um vaso reto, de repente não, eu vou fazer ele assim. Aí fecha ele, aí já dá uma coisa diferente. E os vasos, os vasos nunca são iguais. Você faz um vaso no mesmo tamanho que eu faço, no mesmo modelo, mas não fica igual ao que eu faço. Cada um tem um jeito de fazer. Você passa a vida toda aprendendo. [00:05:44]