Movimento

Beatriz Vidal

Vassouras
Ceramista e arte educadora

“A terra de onde você vai tirar a sua matéria prima é o seu local, é a sua identidade”

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BEATRIZ VIDAL: 

A terra da onde você vai tirar a tua matéria prima é o teu local, é a tua identidade. Todos os povos primitivos têm a sua identidade a partir da terra que usam do seu território. E aí, eu fui encontrar a terra do meu território. 

Fui entender que aqui era um lugar de muita olaria. Fui entender que as olarias já não estavam mais trabalhando porque entraram num processo de industrialização, mas que a ancestralidade dessa presença era muito grande. Então, eu fui buscar o tema para falar. O que é que eu vou contar de história através da cerâmica? E aí, dei de cara com as olarias, e aí os utilitários, as moringas, os utilitários tradicionais que se faziam aqui desde a ancestralidade, desde a época da colônia, né? Mas, a gente tem a ancestralidade dos povos originários, dos Puris. Então, a gente também tem uma ancestralidade dos fazeres de utilitários, de urnas mortuárias. E, aquilo tudo foi me inquietando. Eu falei: a cerâmica fala com todas as nossas ancestralidades. Então, nessa identificação eu fui buscar, então, como representar isso dentro da cerâmica tradicional. E, aí eu fui para a flor do café. 

Eu falei: do café, a gente fala do grão, o grão se reverte em commodities, em poder, em barão, em dinheiro, e em destruição, né? Quer dizer, o processo foi riquíssimo, a gente tem que olhar todo esse processo de agregação de valor no sentindo de que, mesmo que os povos africanos tenham chegado escravizados, eles nos trouxeram uma riqueza de saberes, uma riqueza cultural. Que não seríamos o que somos se nós não tivéssemos tido essa presença. 

Então, hoje o valor dessa presença que nos foi dada precisa ser reconhecida, precisa ser reconhecida em nós. E, aí você vai entendendo os povos, né? Você vai entendendo e vai se entendendo. É a percepção de que qualquer estudo que a gente faça do local onde a gente está, da nossa própria ancestralidade, da nossa percepção naquele local está falando de uma humanidade como um todo.

 Então, quando a gente olha, quando eu fui fazer, né?… fui provocada a falar sobre a identidade local, no projeto, que o projeto virou Rodas do Saber, eu falei: não dá para falar da identidade local sozinha, né? Não sou eu que tenho que falar. Eu falo da minha percepção. Como eu me percebi, como isso me tocou, e qual a minha identidade. Mas, como eu vou perceber o que disso que me toca, toca aos meus pares? E o que de comum meus pares desse território tem que a gente pode dizer que é a nossa identidade? Além da minha própria história com a cerâmica, o quê que a região fala de si própria, né? O quê que acontece aqui que é próprio daqui? 

E, de repente, a paçoca de Semana Santa era uma fala. Por que então que a gente faz paçoca? Ah, porque a paçoca é feita na Semana Santa. Ah, Semana Santa é época de paçoca? E por que paçoca se faz na Semana Santa? E a pergunta ficava rodando em volta do próprio rabo, né? 

Então, quem faz paçoca até hoje? “Ah, dona Merenciana, uma senhora de 83 anos que tem um pilão centenário, que ela herdou da mãe”. Ah, como é essa história, então? Conta pra mim essa história. “Não, porque a gente faz o pilão, aí tem a matriarca da família tem o pilão e aí a gente junta no terreiro, no quintal e toda família cada uma vai fazendo a sua paçoca, ajudando, pilando no pilão”.  Ah, que legal, e a paçoca é feita de que? “Ah, de amendoim”. Ah, é? “É um cultivar indígena. É desde a época dos nossos povos ancestrais”.  Ah, é? “É, mas ninguém mais planta”. 

Aí, seu Brasilino, um senhor de 94 anos vai explicar porque é mais fácil comprar no supermercado. Aí ele: “não, é o seguinte, é que vai dando as florzinhas e aí vai criando o bago, e o bago só cresce debaixo da terra. Porque o bago do amendoim é embaixo da terra que ele se forma, é enterrado. Então conforme vai dando a florzinha para cima você vai jogando terra, vai jogando terra e vai enterrando para o bago crescer embaixo da terra. E isso dá muito trabalho”. Aí a gente vai entendendo, né? Um cultivar ancestral, que não temos mais o amendoim crioulo, ou seja, o amendoim, a gente… é uma das grandes questões é, aí como eu gostaria de dá de cara com alguém quietinho lá cultivando o seu amendoim desde a sua ancestralidade para conhecer o amendoim ancestral nosso, né? Não temos mais esse cultivar. Não temos mais esse hábito, mas temos a paçoca que continua e dona Merenciana ensinando. 

Porquê que na Semana Santa? Porque era época da colheita do amendoim. O amendoim é forte, mistura com a farinha de mandioca que é carboidrato, mistura com açúcar, com a rapadura que é açúcar que é glicose, é energia. Faz aquela pasta, né? E você come aquela farofa gordurosa e doce, né? Para quando tinha que enfrentar o jejum junto com os senhores católicos que faziam o jejum e respeitavam a Semana Santa e como que os trabalhadores iam fazer isso sem poder comer, obedecendo um jejum e tendo que trabalhar braçalmente? Precisavam de uma coisa forte, aí a paçoca entrou. 

E aí, eu estava… comecei lá no começo de falar roda, depois a gente estava falando do soterramento da nossa ancestralidade e uma das coisas que foi trazida, também, num dos primeiros momentos da roda foi o tropeirismo, né? Que desbravou a região, que desbravou o Brasil e que se fazia nas trilhas dos índios. E sobre os caminhos dos tropeiros se fizeram as rodovias. Então, hoje as nossas estradas estão, na verdade, sobre trilhas de índio. 

 Então, assim, quando a gente consegue olhar a região com esse olhar, você consegue ver as várias camadas de cultura. E, é isso que, assim, dentro desse processo todo eu fico olhando para as pessoas, né? Para cada um que está aqui e procurando esse caminho de retorno dessa ancestralidade. Porque se eu percebo a minha ancestralidade no meu território, o meu espaço-território, é um espaço do planeta. Se eu consigo respeitar esse espaço do planeta, eu passo a pertencer mais a esse planeta como um todo, e aí eu passo a respeitar do local para o global. 

Então, no final das contas é… É essa acho que a minha missão, né?  Como a gente poderia dizer, o propósito, o que me move, o que me inquieta. Nesses caminhos encontrei os bonecões de Zé Pereira, nesses caminhos encontrei as cestarias de taboa de dona Teresinha, as cestas de bambu de dona Maria, e aí a gente vai encontrando os saberes locais, os fazeres locais e vai vendo que tudo não está por acaso, né? Eu acho que a grande questão é essa: não estamos por acaso. Esse é um entrelace histórico que nos faz ser o que somos onde estamos, né?  [00:08:31]