Terra

Carlos Haas

Paraíba do Sul
Médico clínico geral do SUS e Práticas Integrativas Complementares

“É história né, tem vários lados da coisa. Quem está ganhando diz que a verdade é essa mas estamos aqui para valorizar os saberes da terra.”

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DR. CARLOS HAAS:  

 Moro aqui em Miguel há nove anos. Morei muito tempo em Petrópolis, mas sempre fazendo homeopatia. Mas, quando eu vim para Miguel, é que eu comecei a trabalhar em serviço público. Trabalhei em Conrado um ano e meio, quase cinco anos em Andrade Costa, Vassouras, e aqui eu estou quase fazendo três anos. Durante a formação, eu morei sete anos numa comunidade. E, nessa comunidade, a ênfase era nesse mesmo ponto, plantas medicinais. Então, plantas medicinais já me interessavam, porque é uma coisa que vai direto para o povo. 

O povo tem uma vocação, uma vocação natural para as coisas naturais porque já tá na linha de hereditariedade, de ancestralidade. E, esses saberes, eles são de uma imaginação ligada com uma parte de espiritualidade, então via intuição, não é pensado isso, é uma transmissão. 

Sempre tem a arma da palavra. Como homeopata sempre a gente tem que colher a história. Trabalhando em serviço público essa é a primeira necessidade, é a primeira arma. Mas, como eu já tinha bastante bagagem, não foi difícil. A parte do afro-brasileiro, por exemplo, que eu vi coisas aí, isso é muito interessante. E, eu sempre gostei de estudar essa coisa, faz parte do cultural, da visão de mundo. Então, na África, o Babalaô que está muito rico, os colegas deles dizem: “olha só, você vai perder o seu feeling, o seu touch. Porque você vai parar de sentir como é que o povo realmente vive. A Babalaô é a coisa do segredo, é a coisa da revelação. O irmão dele é o que cuida do povo, o Onixegum, o que trabalha com as ervas. 

Na parte de plantas medicinais, tem até um amigo nosso aqui do município, ele é farmacêutico. Ele já fez esse projeto de implantar a farmácia viva em vários municípios aqui da região sul fluminense. E, a gente queria fazer aqui, mas nunca conseguimos. Porque os gestores eles até falam: “ah, vamos fazer práticas integrativas”. Mas, a cabeça deles é diferente. Eles estão preocupados com indicadores, porque que vai se transformar em verbas. E, aí quando vão ver mesmo o que é que é práticas integrativas não é atraente para cabeça deles, a verdade é essa. Eu tive, sim, que me adaptar assim, com receituário de SUS. Porque, nem todo mundo quer. A gente tem um idealismo romântico de que todo mundo vai querer as plantas medicinais, e não é assim. Tem uma grande parte que quer remédio, receita, testado. É esquisito, mas é a realidade. 

Pietro Ubaldi, que eu não sei se vocês conhecem, ele disse: “aos vencedores não se pergunta nada”. Entendeu? Quem está ganhando politicamente, ou militarmente, ou economicamente diz que a verdade é essa. E, os deuses dos vencidos automaticamente eram demônios. Passa um tempo dizem que os deuses dos vencidos nem eram deuses, eram só folclore, nem existia. É… é história né, história. Tem vários lados da coisa. A vitória do capitalismo… A globalização é a vitória do capitalismo. Só que hipertrofiou as suas próprias contradições. A descaração, o cinismo está muito evidente. E obviamente, que dali para a podridão e cair de podre é caminho, é a reta. E o “novo” nasce daí, cada povo tem que buscar a sua alma, a sua raiz e quem não buscar, aí vai estar sumido, aí vai estar extinto. Entendeu? Então, esse processo é o novo. Nós somos “optmistas” por isso nós estamos aqui. [00:04:18]