Movimento

Terezinha da Silva

Quirino (Valença)
Artesã

“A gente é artista, quem faz artesanato gosta de fazer”

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DONA TERESINHA:  

 Que eu falo, eu faço crochê, eu faço tricô, planto horta. Mas o único que me segurou, foi a taboa. Eu praticamente fui criada na casa dos outros. Aí, eu tinha vontade de estudar, eu tinha vontade, assim, de crescer. 

Aí, veio a prima do meu marido lá do Paraná. Aí ela trouxe um paninho para cada um. E eu perguntei para ela assim: “Você comprou?” Ela disse: “Não, eu faço”. “Ah, você não ensina?” Ela falou: “Ensino. Você compra a linha e agulha, que eu te ensino”. Aí, eu vim na rua de carroça, comprei a linha, comprei a agulha e ela me ensinou. Aí, ali eu fui fazendo, fazia até roupa para minha filha. Quer dizer, abandonei o crochê… uma vez ou outra quando eu vou no médico assim, que eu pego. Mas o negócio mais… é a taboa.

Porque eu sou uma pessoa assim, quando eu cismo que eu quero aprender uma coisa, ninguém me segura não, eu vou até o fim. Aí, eu fui fazendo, fui ensinando aos outros. Mas aqui nós éramos dez, de dez só ficou eu. Aí, quando eu queria desistir, meu filho: “Oh, mãe, a senhora deu o sangue da senhora pra lá, a senhora vai desistir? Não desiste, não”. E há quinze anos que estou nesse ritmo da taboa. 

Aí, aprendi a ir no brejo tirar. É que sempre eu falo: o trançar é bom, o difícil é só entrar para tirar ela. Porque é perigoso cobra, a gente atolar, que eu já atolei. Mas depois a gente não quer sair de lá, parece que a gente quer carregar o brejo todo. Carregar todo o brejo. Que ela, assim, corta, parece quando for amanhã, já está dessa altura. Então é uma coisa mesmo nascente da terra, sabe? 

Essa semana mesmo, hoje ainda eu falei para minha irmã, hoje se tivesse sol eu ia no brejo tirar a taboa, no caso amanhã. Mas com chuva, não é bom tirar não. Porque ela molha, até nisso a gente… eu já descobrir, isso eu descobrir sozinha. Porque um dia eu fui lá e tirei a taboa, mas tinha chovido, ela ficou preta, ela fica preta. Então, tem que tirar ela com sol, que ela fica sequinha e fica verde. E a gente começa a ver quando ela está verdinha, que a taboa está verdinha, a gente fala: “Gente como que uma coisa pode ficar tão, tão bonita assim?” 

Porque eu tenho a lua também, que eu gosto de ir na lua minguante, na crescente e na cheia. Por que a nova? A nova ela dá caruncho, ela dá bichinho. Então não é bom tirar, né? Aí até uma colega minha debocha, fala assim: “você só tira taboa na lua?”. Eu falei: “é, só tiro na lua.” “Ah, mas eu só tiro no brejo”. Eu falo: “não, eu tiro é na lua mesmo.”

Mas sempre eu estou chamando o pessoal, que eu falo, eu não cobro. Aí falam: “quanto você cobra?”. Aí eu falo: “eu não cobro.” Como eu aprendi de graça, eu também ensino de graça. Só que aí a gente tem que ir no brejo. Então, às vezes, primeiro eu ensino e aí eles usam a taboa e depois diz que não volta, ou melhor, não volta mais. Queria trabalhar, mas só queria o fácil, né?  Eu falei, agora eu vou ensinar diferente. Nós primeiro nós vamos no brejo… gostou? Gostou. Agora nós vamos trançar. 

Teve uma dona que eu ensinava que ela falou assim: “a gente começa a fazer, quando vê que está errado, joga fora que a taboa é de graça, joga fora”. Eu falei: “não, ela não é de graça, porque dá trabalho de a gente ir lá no brejo, cortar e carregar.” Então eu falei: “dá trabalho, também, não vou jogar fora não.” Aí eu vou lá com carinho desmancho e torno a fazer de novo. 

E tudo eu falo: se gostou a gente aprende, agora se não gosta não adianta, né? É como uma vez, veio um pessoal falar: a gente fala que a gente é um artista, né? Que a gente é um artista, que o artesanato, ele é um artista, ele gosta de fazer, né? E quando começa a sair assim, que você vê que está bonitinho, que tá coisa, aí que a gente empolga mesmo, eu vou fazer. E eu tem hora que fico… quando eu estou mesmo no pique, eu chego a esquecer até de comer. Que eu fico quietinha, às vezes, eu fico sozinha ali. Aí, o estômago dói um pouquinho, não, eu vou fazer mais uma voltinha. E vai a terceira, e quarta, quando vê esta meia bolsa. Aí, que eu lembro, ah, mas eu não comi.  

Tudo é taboa. Agora lá em casa tudo é taboa. Até para amarrar as coisas na horta é taboa. Que meu marido planta vagem, é taboa. Amarrar verdura, cebolinha, couve, é taboa. Porque quando sobra ali, o lixinho, a gente leva e coloca na lavoura de figo, né? Que aí ajuda a não nascer mato. Porque a taboa ajuda em tudo. Se for bem pensado ela serve para tudo. 

 Aí, teve um dia, eu fui… eu estava também, como o médico falou pra mim, que eu estava entrando em depressão, qualquer coisinha era motivo de eu chorar, que eu estava entrando em depressão. Eu falei, vou no brejo. Menino eu fui sozinha e Deus. Mas chorei muito. Mas chorei, mas chorei mesmo. Eu não gritei porquê, vão falar que tem maluco dentro do brejo. Mas chorei bastante mesmo. E cortando a taboa, e como diz, conversando com Deus e chorando, né? Depois cheguei em casa, aí meu marido puxa pra mim, porque é muito pesado. Aí, eu falei para os meninos: o brejo nunca vai secar. “Por que mãe?” Porque eu chorei bastante, a minha lágrima está lá. [00:05:36]