Movimento

Maria das Graças da Silveira Santos

Pinheiral
Liderança do Jongo

“A vida nos dá vários caminhos e temos o direito de escolha”

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MARIA DAS GRAÇAS SILVEIRA:  

Meu pai sempre empoderou muito a gente. O estudo para ele era o principal. Ele não tinha estudo, minha mãe também não chegou mais do que a quinta série, mas fez questão que todos nós tivéssemos um pouquinho a mais que eles. Então, a nossa família sempre foi muito assim, de não ter que determinar nada para ninguém. Mas dar caminho, dar escolha. Então, nós somos de famílias de mulheres guerreiras, bem fortes. E homens que sempre se fizeram respeitar, sem precisar impor, apenas com o conhecimento que têm. Eu tenho o hábito de andar de turbante. O tempo inteiro, se você encontrar comigo, seja onde for, eu vou estar de turbante. Aí, uma mãe me perguntou: “você anda pelo bairro e ninguém fala nada do seu turbante, e comigo tem problema”. Aí, eu falei: “Mas tem diferença. Eu sei porque eu estou de turbante, e sei o meu lugar na sociedade, e como eu me comporto na sociedade. Enquanto mãe, vó, mulher negra e jongueira. Então, eu sei o meu espaço. Agora, cabe à senhora rever seus passos”. 

Então, eles acham bacana como eu falo do povo negro. Eu digo para eles, que eu não gosto de falar do negro escravizado, eu gosto de falar do negro atual. Eu mostro vários amigos que estão aí formados, em ciências contábeis, em medicina, advogados. É esse povo que eu trago para eles. Porque, o passado me envergonha? Não. Mas, lá atrás, esse negro lá de trás, eles já conhecem. Então, eles tem que conhecer que a vida nos dá outras oportunidades. Entendeu? Esse negro escravizado ele lutou para a gente chegar até aqui. Então, quem tem que agora dar continuidade e com mudanças positivas somos nós que estamos aqui. Porque quando você vai e senta numa biblioteca igual a de Piraí que você pega para ler sobre o negro da fazenda São José, você vê quanta coisa o negro fazia. Ele não estava ali só para apanhar, só para trabalhar de sol a sol. Ele também tinha profissões. Esse negro que eles tentam passar, que a gente vem de uma “linhagem”, vamos colocar entre aspas essa palavra, ruim, não. A gente vem de uma linhagem, ou descendência, poderosa. A gente tem histórias assim maravilhosas sobre o negro que não é contado. Ele também sabia fazer um milhão de outras coisas boas e que a gente não ouve na escola. Entendeu? A gente só vê esse negro sofrido, esse negro aí, pra baixo. Então, é isso que eu falo que eu não falo muito sobre isso. Eu gosto de falar desse negro carpinteiro, desse negro que trabalhava com ferro, que sabia fazer uma carroça, que sabia manusear armas, sem esse sofrimento todo. Isso aí, vai fazer com que eu queria saber mais, porque você só ficar ouvindo coisas tristes, isso não interessa. E geralmente é o que a gente ouve. Eu acho que o professor é o grande transformador. Ele tem que ter esse olhar, ele tem que olhar e ver lá, olha: “O aluninho, eu tenho trinta alunos, cinco não estão rendendo, por que?” e aí ele tem que buscar esse porquê. Mas ele tem que ter… não adianta falar: “ah, mas tem cem alunos eu não consigo ver”. Consegue sim. Se quiser faz. Eu tenho alguns meninos e meninas que já estudaram lá, eles encontram comigo na rua, eles falam assim: “tia Gracinha, é tão engraçado, você fala umas coisas, na hora a gente fica p. da vida, mas depois a gente para pra pensar, e olha e fala, ela tinha razão”

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