Porto das Flores
Integrante de Folia de Reis
“Todo ano tinha a folia que passava, é muito gostoso você acordar com a folia batendo na sua porta”
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ARCENDINO FONTES (MESTRE DINO):
A gente foi criado em fazenda, né? Meus pais moravam em fazenda mesmo, na casinha de sapé, lamparina, era banho de bacia. Mas era muito gostoso na época. Aí, as folias passavam lá em casa, entendeu? Todo ano tinha folia que passava, às vezes a gente estava dormindo, a gente acordava com a folia batendo. E é muito gostoso você estar dormindo e você acordar com a folia batendo. Não sei se vocês já acordaram com a folia batendo. É uma delícia, você acordar assim, você está dormindo e a caixa batendo na sua porta.
Pra começar, pra a pessoa participar da Folia de Reis tem que gostar. A gente… Na época eu recebi um incentivo da minha sobrinha. Eu e a minha sobrinha, a gente morava na mesma casa, aí passava a folia, a gente pegava e gravava. A gente gravava e passava para o papel. Tudo que a folia fazia, a gente passava para o papel. Foi onde a gente pegou e começou a interessar. Aí a folia passava e tudo que a folia apresentava na casa, a gente sabia tudo, a gente tinha noção de tudo que a folia fazia.
O intuito da folia de Reis, é tudo uma coisa só. Todos, é a mesma coisa. Mas só que cada um faz de um jeito. Naturalmente, com a juventude, com um palhaço mais jovem, a gente conversa com ele, na hora de sair na folia ele benze na bandeira, a pessoa… vai lá um que tem experiência, benze o palhaço na bandeira. Todos os componentes da folia se benzem também na bandeira. Eu monto o presépio também, a pessoa vem no presépio, reza. Os palhaços, cada um acende uma vela pra ele, na hora de sair para pedir proteção, entendeu? Para que corra tudo bem. E assim que a gente vai levando.
Hoje, graças a Deus, nós, acho que, somos bem protegidos. Mas eu conheço casos de Folia de Reis, de pessoas sumirem na Folia de Reis. Sumir, está assim no meio dos outros, assim, e sumir. Nunca mais aparecer. Pessoas, às vezes, que não saíam com devoção, entendeu? Então era sério à beça. Era muito sério mesmo. A pessoa tomar coça, no meio de todo mundo, assim, apanhando. E ninguém vê ninguém batendo. E a pessoa apanhando, gritando. A Folia de Reis é uma coisa bonita e muito séria. É o que eu falo sempre com meu grupo que a gente saí junto. Agora está até ruim porque tem pouca gente à beça. Eu falo: gente, a gente monta a folia do dia vinte e quatro, para vinte e cinco, até o dia seis de janeiro, a gente torna-se uma família. O grupo que está junta torna-se uma família. Chega no dia seis, a gente faz uma janta, o pessoal todo mundo janta. Quem estiver na rua vem, janta. Já teve ano de eu dar janta para umas duzentas e cinquenta pessoas, por aí assim. Mas é uma coisa muito gostosa de fazer. Você vê, a gente monta a Folia de Reis, saí com a Folia de Reis, chega no outro dia tem uma criançada que pega umas latas velhas e começa a bater a lata. E no ritmo, bater a lata no ritmo. Entendeu? Então, eu acho que a prefeitura poderia ter um incentivo para a juventude começar. Arrumar um professor bom e botar para ensinar a tocar violão, cavaquinho, viola, sanfona. Porque é só um começar e gostar, comenta com o outro, o outro vai querer ir. E para gente que sai com Folia de Reis, seria uma beleza. A gente podia ter bastante instrumentista, que a gente não tem. Hoje o que a gente mais falta é instrumentista. Tem três garotos na idade de mais ou menos uns dez ou onze anos, precisa ver, que beleza os meninos. Uns meninos bons, mas precisa ver que meninos bons. Os meninos que respeita, não faz bagunça, precisa ver. Aqui tem uma juventude muito boa.
Eu não faço promessa, porque eu acho que se eu fizer promessa, a promessa não vai valer, eu não sei porquê. Eu tenho fé em todos os santos, eu tenho fé em Santos Reis, mas não faço promessa para nada. Mas não faço promessa para nada mesmo. Pra nada, nada, nada… Tem pessoas que fazem promessas todo ano, entendeu? Tem pessoas que tem promessa de sair sete anos, eu não, eu saio de Folia de Reis, mas eu não tenho promessa de sair tantos anos. Eu saio o tempo que eu quiser e posso parar também, que não tem problema, porque eu não tenho promessa. Eu não saio por abuso, eu saio por que eu gosto. Eu saio por devoção. Para a pessoa ser um mestre de folia, tem que gostar e interessar realmente. Querer aprender. Porque, às vezes, você todo ano que você sai, você aprende um pouquinho. Você acha, “ah, eu sei tudo.” Sabe nada, eu duvido. Você, a cada ano que passa, você vai aprendendo um pouquinho. [00:05:01)]