Vassouras
Fundadores do PIM
“O que tem aqui dentro pertence ao PIM, o PIM não pertence a ninguém mas a comunidade então a comunidade tem que ter acesso ao que está aqui dentro”
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CÉLIA MOREIRA:
Cresci aqui, nasci, morei aqui. Morei fora uns nove anos, mas a maior parte da minha vida foi aqui em Vassouras. Eu acho que é por isso, assim, a gente, tanto eu quanto o Cláudio, a gente… Nós nascemos aqui, crescemos aqui, passamos a maior parte da nossa vida aqui. Então você sabe tudo que tem aqui de bonito, de diverso, que precisa ser mostrado, que precisa ser valorizado, que precisa ser conhecido.
Então, apesar da música continuar sendo muito importante para a gente, você começa a receber demandas, que você começa a ser impulsionada a contribuir, a incentivar, a organizar concertos. E convida a Folia de Reis para participar, convida a Caninha Verde, convida a Capoeira. Aí você percebe o quanto de coisa que você tem, não só em Vassouras, mas em Barra do Piraí, em Pinheiral, em Valença, em Mendes, em Paulo de Frontin, Paraíba do Sul, Três Rios… Tudo tão importante, tudo tão bonito e que é totalmente desconhecido. E como que isso faz parte da nossa vida, né? Como que acrescenta, como que contribui. É aquela coisa, assim, de você sonhar em comunidade. É isso.
Apesar de todo o sacrifício que é, você trabalhar a cultura no interior. Eu acho que tem poucas pessoas… poucos são os grupos que vivem exclusivamente da cultura, como é o caso do PIM. A gente sabe disso. Eles têm o seu emprego formal e eles fazem isso porque eles acreditam nisso, mas sem nenhum incentivo financeiro. Ninguém tem um valor mensal para pagar o professor de capoeira. Ninguém tem isso, ninguém tem. Eles fazem, porque eles gostam disso. A gente tem um mestre de capoeira que trabalha no PIM terça e quinta. E aí, ele trabalha no PIM, terça e quinta, segunda e quarta eu não sei onde, sexta não sei onde, e ele trabalha no caminhão do lixo. E aí, à noite ele faz isso. E é totalmente gratuito. É o que ele gosta de fazer da vida dele. Então, quando tem troca de corda, quando tem alguma coisa, viagem com as crianças, aí tem que a comunidade toda, a gente participa como a gente pode, todo mundo ajuda. Mas é muito difícil. Hoje eu acho que, apesar da gente continuar trabalhando a música, a nossa demanda é muito maior que isso, vai muito além. E os nossos objetivos também.
A gente agora está em cinco distritos, nas escolas. Aí, em Ipiranga, é violino, viola, violoncelo e contrabaixo. Demétrio Ribeiro, que é outra comunidade também complicada, difícil, é fagote e saxofone. Bacia de Pedras, que é bem pertinho também, harpa. São cento e cinquenta e oito alunos de harpa. Consegue imaginar? Eles nunca tinham visto uma harpa na vida. E agora tem cento e cinquenta e oito crianças estudando harpa lá nessa comunidade.
E é um repertório único. Todo mundo trabalha o mesmo método. Independente do instrumento, todo mundo trabalha o mesmo método. Então, quando você junta essas escolas todas aqui no sábado, todo mundo toca a mesma coisa. E aí, eles quando se juntam para tocar a mesma coisa, a gente espera que eles entendam que quando você cuida do outro, quando você pensa no outro, e aí quando você está junto, essa integração, assim, como é importante para que você consiga chegar em algum lugar, mudar a sua realidade, da sua comunidade. E aí, o objetivo foi esse, quando a gente pensou em separar esses naipes desse jeito. E está muito legal, eu acho que eles estão começando a entender.
E agora a gente quer chegar a Ferreiros, a gente quer chegar em todos os outros distritos, porque eles não têm esse acesso, com essa facilidade que a gente tem aqui. Apesar de a gente achar que a gente tem pouco, lá eles não têm nenhum. Então, o que você leva, se você leva a capoeira, se você leva o jongo, tudo que você leva, eles participam muito, eles querem muito.
É claro que a música é o caminho que você começa, mas aí, quando você chega lá, as demandas são tantas que você vai inventando coisas. E aí, essas vivências vão te fazendo continuar, independente do cansaço, da idade. Não é? Você não caminha sozinho. É a vontade de todo mundo. É o que é importante para o trabalho de todo mundo, para que todo mundo consiga chegar num lugar que seja bom para todo mundo. As pessoas precisam acreditar que o que elas fazem é importante, que alguém tem que cuidar daquilo, que aquilo tem que crescer e que tem que ser mantido, e que tem que ser preservado. Não pode acabar. Não pode… Um dia morreu e acabou, né? Eu acho que o caminho mais leve, assim, o caminho mais fácil, menos difícil de você chegar aí, é através da arte, da cultura, quando a criança se percebe capaz do teatro, de falar alguma coisa, quando ela percebe assim: “caraca, eu consigo fazer isso, eu consigo…” Então, eu acho que aí você começa a: “Se você consegue isso, você consegue que você quiser da tua vida, né?”
Tem que ter disciplina, tem que ter vontade, é difícil, mas você consegue. Então, vamos lá. Eu acho que é isso aí. E ainda é pouco valorizado. Ainda é pouco acreditado. As pessoas não acreditam muito nisso. Mas as comunidades acreditam nisso. Você vê que eles mantêm isso, né? Não tem uma comunidade dessas que não tem uma Folia de Reis, que não tem um calango, que não tem um jongo, né?
Todo lugar tem uma pessoa que é responsável por manter. Agora, o espaço é nosso, é da comunidade. Então, independente se é para a cultura, se é para a saúde… Se vai ser usado de alguma maneira que vai beneficiar a comunidade, é nosso. É aqui. Pode usar, é nosso. Eu acho que o PIM, ele conseguiu se manter esse tempo todo, porque as pessoas entendem assim. É meu, sabe? Eu tenho que cuidar, é meu. Cultura é direito, né? Você não pode trabalhar, trabalhar, trabalhar, trabalhar, trabalhar… com aquela coisa de sobrevivência. Você tem que viver, você tem que sentir prazer no que você faz. Você tem que saber que vai deixar um legado, que alguém vai viver aquilo, que alguém vai aproveitar daquilo. Eu não sei como a gente vai conseguir isso, nem se a gente consegue tão cedo, mas eu acho que é o caminho que a gente está fazendo. E eu acho que é para que se chegue nesse lugar aí. É maluquice, é doideira, estou velha, estou cansada. Mas é isso, é isso que eu quero fazer. É o caminho… Um dia a gente chega. Não sei se eu chego, mas alguém chega. [00:0X:XX]